Minas por Região

Entrevista

17h14m - 12 de Setembro de 2011 Atualizado em 12h21m

Pronunciamento do governador Anastasia durante entrega da Medalha JK

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Senhoras e senhores,

Agradeço, em primeiro lugar, ao eminente presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, deputado Dinis Pinheiro, por ter aceitado o nosso convite para pronunciar a Oração Oficial desta cerimônia, e vejam como não errei ao convidá-lo pela bela peça que acaba de nos legar, em homenagem ao grande homem que Diamantina e Minas educaram com seus valores, para que servisse ao povo brasileiro.

O parlamento mineiro a que Vossa Excelência, deputado Dinis, hoje preside, tem sido, desde sua criação, em 1835, defensor da autonomia provincial e, a partir da consolidação da República, firme na afirmação dos direitos federativos dos estados brasileiros.  

Orgulho-me das excelentes relações entre os poderes do Estado em Minas Gerais. Rigoroso na defesa de suas prerrogativas constitucionais, que é de seu dever, o parlamento mineiro não tem negado, pela sua maioria, apoio ao Estado em todas as medidas reclamadas pelo desenvolvimento econômico, pelas políticas sociais, pela saúde, pela segurança, pela educação e pelo bem de nosso povo. Sinto-me orgulhoso e feliz pelo excelente convívio que mantemos com os membros do poder legislativo estadual que aqui homenageio, que honram as melhores tradições de Minas Gerais.

Senhoras e senhores,

Severo diante do dever, impávido frente às vicissitudes, impaciente com os acomodados, ele sabia viver com alegria, mas não ocultava o sofrimento diante das injustiças. Assim foi Juscelino, no depoimento daqueles que o conheceram de perto. Era difícil ser seu adversário na política e, conhecendo-o, impossível ser seu desafeto.

É conhecida a amizade que o unia a muitos dos opositores de seu governo em Minas e na Presidência da República. Deus, que o poupara do sentimento do medo, também o preservara do sentimento do ódio. Impeliam-no duas virtudes políticas, inseparáveis de sua identidade humana: a busca da coesão nacional - em torno das velhas razões montanhesas, nas quais identificava a alma brasileira - e dedicação permanente à construção da grandeza do país, como fiadora de nossa soberania.

Para a coesão nacional, identificava os pontos comuns que conciliassem as correntes de opinião, dentro do possível.

Para a grandeza nacional, era preciso desenvolver o país, ampliar o mercado interno, buscar a igualdade social mediante a lei, dotar as forças armadas de equipamentos eficazes.  

Assim como os acomodados o impacientavam, impacientava-o também a lentidão do tempo. Ao olhar alguma paisagem mansa, bucólica, deserta, rasgava-a com os seus olhos; nela semeava, antevia douradas messes, abria estradas, erguia fábricas, cavava lagos e represas, povoava-a de trabalho e de alegria.

A simpatia do sorriso, a amabilidade de suas palavras e o bom humor nos diálogos, sociais e políticos, não impediam a firme defesa de seus objetivos, nem a coragem pessoal, tantas vezes demonstrada, até mesmo sob o calor dos combates. Isso ocorreu, vamos nos lembrar, no confronto de 1932, a que os mineiros foram obrigados, na afirmação dos postulados da Revolução de 1930. Ainda que não combatente, ele se expôs ao fogo inimigo, a fim de socorrer os feridos na batalha do Túnel da Mantiqueira. No depoimento de seus companheiros, Juscelino se movia, no teatro de operações, como se estivesse em vasta sala de cirurgia, infatigável no socorro aos soldados.

Contemporâneo do futuro, não se limitou a governar a cidade de Belo Horizonte: avançou sobre o tempo, como ocorreu ao imaginar o Conjunto da Pampulha. Em Juscelino, os olhos edificavam sobre os alicerces da esperança, antes que as obras se nutrissem de projetos, de concreto e do suor dos trabalhadores.

E assim fez, ao governar Minas – e ao governar o Brasil.

Vivêramos o século sob condições adversas. A repressão ao movimento da Inconfidência forçara alguns dos melhores mineiros à diáspora, privando-nos dos homens de iniciativa e de cultura, e foram necessárias décadas para que retomássemos o dinamismo anterior. Quando homens como os irmãos Ottoni – deste mesmo espaço humano - buscavam recuperar o nosso pioneirismo, tivemos que competir com o conhecimento técnico dos imigrantes europeus que industrializavam São Paulo, na segunda metade do Império.

Não nos foi possível, assim, no século 19, longe do mar, dependentes dos portos do Rio de Janeiro e de Santos, acompanhar o desenvolvimento econômico da capital do Rio e de São Paulo. Já se percebia, também, o cerco aos montanheses, em razão de seus fortes sentimentos nacionalistas. Esses sentimentos nunca nos abandonaram, e fermentaram a Revolução de 1842, como registra o Manifesto rebelde daquele ano. A grande e notável exceção foi a indústria têxtil, sobretudo em Juiz de Fora que, em meados do século, já rivalizava com a de São Paulo.

A pecuária extensiva era a única atividade rural que se expandia, porque os rebanhos se deslocavam dos centros de criação às invernadas e, das invernadas, aos abatedouros. A comercialização das sobras de cereais das colheitas de subsistência das fazendas mistas do Estado se fazia mediante os tropeiros, esses pioneiros ousados da economia.

Não é por acaso que muitas das grandes fortunas brasileiras, sobretudo em Minas e em São Paulo, se tenham iniciado com esses homens, que se sacrificavam, sob as intempéries, nas arriscadas trilhas dos sertões.

A política de substituição de importações, imposta pela queda vertiginosa do preço do café, em decorrência da crise de 1929, estimulou o surgimento das manufaturas, mas ainda nos encontrávamos manietados pela falta de transportes, não obstante o desenvolvimento das ligações ferroviárias.

Não se tratava de estimular o enriquecimento dos homens de negócios, mas sim de criar empregos, distribuir renda, financiar a educação, a saúde e a segurança, sem o que as nações não se fazem fortes e independentes. Juscelino resumia, na falta de energia e de transportes, o obstáculo ao desenvolvimento de Minas – e do Brasil, como seus atos posteriores confirmariam.

Dificilmente, personalidade como a sua nasceria em outra paisagem, que não esta, severa e bela, temperada de bravura e de ternura, de ásperas rebeldias e de comoventes histórias de amor. Mais do que a busca do ouro, que costuma ocorrer em veios contínuos, a do diamante reclama duas fortes manifestações do caráter dos homens, aparentemente opostas: a paciência e a audácia.

Diferente dos mineradores ricos, senhores de implementos e de escravos, o garimpeiro solitário, esse fundador da alma montanhesa, e que ainda sobrevive, deve concentrar-se sobre o fundo da bateia, ter os dedos aptos a distinguir, com o tato, as gemas, por diminutas que sejam, e conferir, com os olhos, o que a dureza dos grãos não basta para identificá-los: a transparência, a cor, a intensidade do brilho que a pedra bruta esconde aos não iniciados.

Ao mesmo tempo, o garimpeiro devia afrontar os percalços de uma vida dura, sujeita às tempestades, aos agentes da Metrópole, que combatiam a sua independência e liberdade, e aos salteadores, que muitas vezes os assassinavam, a fim de se apropriar de seus achados. Inúmeras grupiaras foram marcadas pelos ossos dos que tombaram sobre o cascalho, defendendo-se dos bandoleiros e dos esbirros da Coroa. É dessa estirpe que se fez a parcela mais significativa da alma de Juscelino.

Seu pai era diamantinense autêntico, que trazia, no sangue e no espírito, as marcas do garimpo. Era um trabalhador alegre, irrequieto, romântico; saltava de uma atividade para a outra com a agilidade dos pássaros curiosos, que morreu muito cedo.

De seu bisavô materno, Jan Kubitschek, o hábil marceneiro que emigrou, em 1831, da Boêmia para o Serro, talvez tenha Juscelino herdado a obstinação que o levou a vencer as dificuldades da vida, nos estudos, no trabalho, na carreira de oficial médico de nossa Força Pública, hoje Polícia Militar, e na persistência da política.

Senhoras e senhores,

Durante demoradas semanas, em 1934 e 1935, Juscelino percorreu esta região, do Itambé à divisa com a Bahia, quase sempre a cavalo, buscando os sufrágios que, somados aos do resto do Estado, o fizeram o mais votado dos candidatos de Minas à Câmara dos Deputados nas eleições daquele ano. Ele não se valeu dos métodos, então correntes, de se dirigir apenas aos grandes eleitores, que influíam na votação de seus amigos e empregados.

Em Diamantina, ele foi de casa em casa e, na região, de povoado em povoado, de fazenda em fazenda, sem desprezar os ranchos mais humildes que encontrava no caminho.

Como vemos, o Brasil inteiro tem uma grande dívida para com esta região, que outorgou a Juscelino o seu primeiro mandato, abrindo-lhe caminho para a vida gloriosa que lhe coube. Em seus passos no mundo, Juscelino sempre se guiou pelos sentimentos forjados aqui, nesta humanidade peculiar da gente do Tejuco. Se os mineiros, senhor prefeito, são identificados rapidamente, em qualquer lugar do Brasil, os diamantinenses nós os conhecemos logo, pela beleza de sua gente, pela inteligência singular e marcado amor à vida.

Em Juscelino, diamantinense exemplar, senhoras e senhores, o arroubo juvenil com que se entregava aos sonhos e ao trabalho era subordinado à razão mais severa.

Médico pela vocação de servir, Juscelino tinha a visão orgânica da política e do Estado.   

Não por acaso, ele levava, de Diamantina, a inspiração. Embora a primeira usina hidrelétrica de Minas, com o emprego de turbinas, tenha sido a de Marmelos, em Juiz de Fora, a primeira geração de energia, poucos sabem, pela força hidráulica, foi aqui. Em 1883 – apenas um ano depois da primeira usina de energia elétrica montada em Apletton, nos Estados Unidos, e cinco anos antes da geradora do Paraibuna - o engenheiro Artur Thiré, da Escola de Minas de Ouro Preto, produziu energia no Ribeirão do Inferno, a partir de dois dínamos, acionados por uma roda d’água. Com a linha de transmissão, de dois quilômetros, foi possível suprir de eletricidade os equipamentos de uma mineração de diamantes. Como vemos, nada ocorre por acaso.

Senhoras e senhores,

Juscelino morreu em plena ação política, em busca da restauração pacífica do processo democrático nacional. Era ainda um homem forte e saudável, 20 dias antes de fazer 74 anos, no alto de sua inteligência e disposição para a luta, quando houve o triste acidente que o matou. Ele nos faltou no difícil processo da transição democrática.

Perdoem-me a extensão desse pronunciamento, mas é sempre necessário recorrer à obra dos grandes nomes de Minas, para a renovação do compromisso com os valores essenciais de nossa gente, os do desenvolvimento, da justiça e da liberdade, dos quais foi servidor, até o fim, o grande diamantinense, o nosso querido presidente eterno Juscelino Kubitschek de Oliveira.

Muito Obrigado.     

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