Pronunciamento do governador Fernando Pimentel durante solenidade de entrega da Medalha Presidente Juscelino kubitschek

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Bom dia a todos e a todas!

Mais uma vez, nesse 12 de setembro, nessa histórica e gloriosa cidade de Diamantina, Minas se reúne para reverenciar aquele filho dessa terra, filho da Dona Júlia, professora primária, morador na infância e adolescência da rua São Francisco naquela casa, ali, bem em frente ao Beco dos Berens. Sim, ele mesmo, menino humilde que saiu daqui para estudar e trabalhar na capital, formou-se médico, oficial da Policia Militar, depois prefeito de Belo Horizonte, governador de Minas e presidente do Brasil. Ele mesmo, Juscelino Kubitschek de Oliveira.

É a sua memória e a sua trajetória que homenageamos e, talvez mais do nunca, hoje seja necessário e imprescindível lembrar Juscelino.

Lembrar o visionário mineiro que, inspirado por Celso Furtado, criou a Sudene, que soube estimular a indústria nacional com seu programa de metas, que expandiu a capacidade energética do país com novas hidrelétricas tão potentes quanto Furnas e Três Marias, que ampliou a mobilidade da nossa rede rodoviária, e claro, construiu a nova capital do País, Brasília, deslocando definitivamente nossa fronteira de expansão econômica para o Oeste e abrindo espaço para o crescimento do agronegócio.

Mas lembrar também o JK político habilidoso, articulador, tolerante a ponto de anistiar os militares da Aeronáutica que, por duas vezes, se amotinariam contra seu governo, aquele Juscelino que dizia ter sido poupado por Deus do sentimento do medo.

De fato, medo não teve quando rompeu, em 1959, com o FMI, que, desde aquela época, pretendia impor ao Brasil – para conceder-nos crédito – condições subalternas e desrespeitosas com a nossa soberania. Ouçam o que disse Juscelino, em junho de 1959, a propósito, justamente, dessa ruptura com o Fundo Monetário Internacional.

“Sabia e sei os riscos a que me tenho exposto: riscos exteriores, riscos de interesses criados dentro o Brasil, riscos de enfrentar as naturezas negativas, dos que preferem continuarmos indefinidamente adormecidos, pobres, mergulhados em dificuldades, sujeitos a toda sorte de surpresas. Bem sabia que a disposição de tentar recuperar o tempo perdido para o nosso país, que a experiência do desenvolvimento, seria considerada loucura, não pelo povo, que me acompanha, ampara e defende, mas pelo grupo pequeno e aguerrido dos que têm como programa destruir ou, no pior dos casos, não deixar construir coisa alguma. Tenho dado mostras de bastante prudência, de espírito conciliador na política externa e na política interna, para poder dizer-vos hoje, aqui, que não cederei e que – considerem ou não imprudente a minha atitude – não recuarei um passo quando se tratar da defesa do Brasil, do seu desejo de se transformar num povo forte, realmente dono dos seus passos. Nenhuma teoria é mais forte do que a convicção intima que tenho – e que tendes a vós – de que a nossa segurança está em crescer, em expandir-nos, em elevar o nível de vida de nossos patrícios, tantos deles torturados pelas tenazes da miséria. Nenhuma prudência me fará praticar a imprudência de desamparar a nossa indústria, de consentir que ela caia em mãos forasteiras, pelos efeitos da falta de financiamento justo e racional, ou que seja destruída pela anemia, pela falta de crédito.”

Senhoras e senhores,

Quanta atualidade nas palavras ditas há quase 60 anos!!! Quem nos dera ter de novo um líder assim destemido, sem bravatas, mas seguro em sua atitude patriótica e solidária com seu povo, firme na busca do desenvolvimento com soberania e justiça social.

Destemido foi também o comportamento de Juscelino quando, após deixar a Presidência, enfrentou múltiplos inquéritos e processos judiciais, movidos pelos algozes de plantão, que o acusavam de ser, pasmem, “o mais corrupto presidente que esse país já conheceu”. Jornais e emissoras de rádio e TV, as mesmas que serviram fiel e sabujamente à ditadura que havia se instalado em 1964 e que ainda hoje se prestam ao papel de difamar homens públicos de orientação política democrática e popular, acusavam JK de toda sorte de ilícitos e irregularidades. Muito tempo haveria de se passar – só de exílio Juscelino penou três anos – antes que tudo se demonstrasse falso e injusto.

O tempo repõe a verdade, mas não cura a dor de quem sofreu a injustiça. Quem hoje se lembra do Edifício Ciamar? Ninguém. Mas esse prédio, na Av. Vieira Souto, em Ipanema, no Rio, seria o endereço do caríssimo apartamento que Juscelino teria ganhado de um empreiteiro milionário e amigo. O prédio esta lá ate hoje, mas o apartamento nunca foi de JK. Tudo mentira, tudo calúnia, tudo parte de um combate tenaz e cruel contra a liderança de Juscelino, sua posição claramente nacionalista e a favor dos mais pobres, enfim, aquilo que todos sabemos.

A semelhança deste episódio com outro mais contemporâneo não é mera coincidência. Desde muito, na historia do Brasil, registram-se campanhas negativas e insidiosas, semelhantes a que Vargas sofreu, depois JK, depois Goulart e depois...Bem todos estão assistindo, todos somos testemunhas e personagens do momento atual.

Mas a historia não é escrita pelo ódio e pela intolerância, nem tampouco pelas canetas da intriga e da noticia irresponsável. É o amor do povo àqueles que se dedicaram ao Brasil e as causas populares que conserva impolutas na memória figuras como a de Juscelino Kubistchek. Os aplausos aos inquisidores, mesmo que ruidosos, se provocados pela infâmia e pela calúnia, são efêmeros e não ecoam na história. Quem se lembra hoje dos nomes, um nome que seja, de algum dos personagens que promoveram os inquéritos, os interrogatórios, a perseguição maldosa contra JK? A fama e a glória desses pequenos seres humanos desapareceram tão breve quanto sua própria existência.

JK não. Hoje, exatos 115 anos após o seu nascimento, lembramos e saudamos esse grande brasileiro, para nosso orgulho conterrâneo dos mineiros, sem esquecer as vicissitudes pelas quais passou ao longo da vida.

Essa lembrança inspira a todos os brasileiros, em meio à tempestade que o país atravessa. E para atravessar e vencer essa tumultuada quadra da nossa história, Minas oferece o exemplo de Juscelino. Com uma virtude, em especial, muito própria dos mineiros.

E para falar dela vou recorrer a Guimarães Rosa, escritor que melhor soube expressar a nossa identidade enquanto mineiros e mineiras. Em um texto célebre, justamente sobre a mineiridade, Guimarães Rosa começa com uma frase singela, porém profunda: Minas é a montanha. O que ele queria dizer? Que, diferente dos povos litorâneos, que têm o mar como referência, nós, mineiros, temos como referência a montanha. O mar pode ser calmo ou tempestuoso, brilhante ou escuro, azul, verde ou cinza, enfim, ele é imprevisível. A montanha não. Ela é previsível, sólida, permanente. Está sempre lá, absoluta, quase eterna. Agora me permito repetir a citação completa de Guimarães, para chegar à virtude que quero mencionar:

Minas é a montanha, montanhas, o espaço erguido, a constante emergência, a verticalidade, o esforço estático; a suspensa região – que se cala. Atrás de muralhas, de caminhos retorcidos, Minas começa como um desafio de serenidade.

Serenidade, essa é a palavra, tão conhecida dos mineiros, tão característica de JK e do nosso jeito de ser, tão necessária ao Brasil de hoje.

Serenidade para avançar nas reformas, mas sem atropelos, sem exaltação, num processo de discussão em que o convencimento venha pela racionalidade e não pelas ameaças ou pela coerção.

Serenidade para construirmos um novo modelo político, que substitua o atual, carcomido pelos vícios que todos conhecemos. Modelo hoje claramente incapaz de oferecer soluções para a crise devastadora que o país vive. Substituí-lo por outro, mais adequado, mais transparente e eficiente, como outros países já fizeram, é indispensável, mas não será possível num clima de ódio, de intolerância, de pré-julgamentos e de abolição das garantias mais elementares dos regimes democráticos. Por isso, também aqui há de haver serenidade para avançarmos.

Serenidade para que a Justiça faça o seu trabalho, em meio a tantas acusações e denúncias, sem açodamento, sem partidarismos, com a necessária isenção, com a neutralidade que se espera dos julgadores e não dos justiceiros, assegurando o direito de defesa tanto quanto o espaço da acusação, enfim, serenidade para que a punição dos eventuais culpados seja proporcional aos seus delitos, mas que se proteja da execração antecipada àqueles que hoje, simplesmente por serem acusados, já se tornam condenados de antemão.

Finalmente, serenidade para superarmos divergências e reconstruirmos o consenso nacional em torno das duas ideias-força que fizeram o país avançar ao longo século passado, desde os anos 30, e mesmo na primeira década deste século, quais sejam: crescer e distribuir renda. Esse é o nosso ideal, o eixo que move a nação brasileira desde a República e motiva nossas gente a seguir em frente: crescimento econômico com justiça social. Nos períodos em que o Brasil conseguiu conciliar essas duas meta, como aconteceu naqueles anos dourados do governo JK, vamos reconhecer, nesses períodos, o Brasil foi feliz.

E é em nome deste Brasil feliz de novo, esperançoso de novo, economicamente forte e socialmente justo que todos aqui reunidos celebrando Juscelino e seu legado.

Encerro citando o mesmo discurso de 1959. Ouçam a fala de JK;

Para atingirmos a meta final, temos que atravessar trechos extremamente difíceis, veredas estreitas com abismos de todos os lados a exigirem um comportamento calmo, contido, sem transbordarmentos que diminuam a nossa firmeza e a nossa obstinação. A marcha para o desenvolvimento só terá o seu rendimento justo e necessário se todos agirem como um só. Aqui, já não mais apelo para a solidariedade política, mas para a união dos homens de boa vontade, do povo brasileiro, ansioso por que o país saia de um período de incertezas e de pobreza. Deixemos a instigação à desordem, as retaliações pessoais, as intrigas, para os que não querem que o Brasil se torne uma nação liberta e sólida. São os brasileiros os únicos responsável pelo Brasil. Marchemos juntos, em busca do grandioso futuro do país.

Que assim seja e que Deus nos ilumine e proteja.