Minas por Região
Segurança / Defesa Social

14h00min - 06 de Fevereiro de 2012 Atualizado em 22h20min - 29 de Outubro de 2013

Peças de tricô e crochê produzidas por detentos ganham o mundo

Cantora Daniela Mercury se apresenta no Carnaval de Salvador com um dos modelos

O cenário é inusitado. Agulhas em punho, novelo de lã ao lado e tem início uma produção de peças de tricô e crochê atípica: os artesãos, além de serem todos homens, são detentos da Penitenciária Professor Ariosvaldo Campos Pires, localizada em Juiz de Fora (MG). O trabalho dá tão certo, que as peças já ganharam o mundo e são vendidas no showroom em São Paulo, feiras em Paris e Tóquio e 70 lojas multimarcas no Brasil. Além disso, a cantora Daniela Mercury vai usar uma peça no Carnaval de Salvador e, recentemente, a apresentadora da TV Globo, Angélica, apareceu em um programa com um dos modelos.

Os detentos, normalmente 12, se dedicam oito horas por dia à produção. Em alguns períodos, o número de artesãos pode chegar a 35. A marca, Doisélles, foi criada pela empresária mineira Raquell Guimarães, que teve a ideia de buscar mão de obra na prisão, já que não conseguia no mercado. “Normalmente quem realiza esse tipo de trabalho são pessoas mais idosas, senhoras, que não conseguiam se dedicar como precisávamos. Então pensei nessa parceria, mas imaginei mulheres. Quem sugeriu que fossem os homens foi a diretora do presídio”, conta a empresária.

Ândria Valéria Andries Pinto é quem comanda a penitenciária e apostou nos detentos. “Falei com ela que em dez dias a gente ia conseguir provar que eles eram capazes. E deu tão certo que eles até já criaram um modelo”, revela. Os detentos realizam o trabalho desde 2009, quando foram capacitados e aprenderam o ofício. Célio Tavares de Souza foi um deles. Hoje no regime semi-aberto, ele foi contratado pela Doisélles. Trabalha na sede da empresa como auxiliar de produção e acredita que a oportunidade dada dentro da penitenciária foi fundamental. “Levantou minha auto-estima, saber que a gente pode ser capaz de se reintegrar à sociedade. Essa é uma oportunidade muito importante para os recuperandos da unidade”, afirma.

Este também foi um dos motivos que levou a proprietária da marca a trabalhar com os detentos. “Eu acredito que o trabalho é o caminho para a ressocialização”, destaca Raquell Guimarães. Ela também cita como benefícios da parceria o controle da produção. “Queria organizar um grupo, ensinar, treinar. Isso ajuda muito no controle de qualidade da produção”, relata.

Profissão

Adenilson da Silva de Jesus participa do trabalho desde o início, em 2009. Ele calcula já ter produzido cerca de 300 peças. “É uma profissão. É bom saber que a gente que fez e é bom fazer uma coisa diferente”, diz.

Rafael Nogueira, ao contrário de Adenilson, está há poucos meses no ofício, mas também já aprendeu a tricotar e crochetar e surpreendeu a família. “Eles ficaram felizes. Meu pai, principalmente, ficou muito surpreso. Pode ser que eu trabalhe com isso lá fora, a gente aprende bastante aqui, com certeza pode ajudar a recuperar uma pessoa”, destaca.

A Doisélles realiza o pagamento por peça de roupa produzida. O ‘salário’ é depositado na conta dos detentos que, em dois anos de trabalho, já acumulam uma produção de mais de 10 mil peças. Além disso, a cada três dias trabalhados, eles ganham a redução de um dia na pena. 

Daniela Mercury

A cantora baiana Daniela Mercury vai usar no Carnaval em Salvador, na Bahia, um modelo produzido pelos detentos. Ela é embaixadora da Unicef e procurou o projeto após ficar sabendo do trabalho. Segundo a diretora geral da penitenciária, Ândrea Valéria Andries, “uma empresária da Daniela veio aqui e buscou uma roupa para ela ver. A cantora gostou muito e abraçou a causa”.

Para o secretário de Estado de Defesa Social, Lafayette Andrada, oportunidades como essa reforçam o compromisso do Estado com a ressocialização dos presos. “O trabalho e o estudo são pilares importantes na busca por reinserir os detentos na sociedade, por isso o Governo de Minas tem investido bastante nessa área. Interessante destacar que, ao contrário do que algumas pessoas pensam, os presos podem fazer trabalhos bastante qualificados, como este que vem sendo desenvolvido em Juiz de Fora”, ressalta.

Trabalho

Além dos dezoito presos que confeccionam as roupas, outros 370 detentos da Penitenciária Ariosvaldo Campos Pires também trabalham enquanto cumprem pena. O número representa cerca de 80% dos presos da unidade empregados em alguma atividade.

Números no Estado

Minas Gerais é o Estado do país que tem, em números percentuais, o maior número de presos trabalhando. Hoje, mais de 11 mil detentos realizam atividades profissionais enquanto cumprem pena. As atividades são variadas e vão desde a produção artesanal até a construção civil.

Há unidades em que os presos fabricam bolas, sacolas ecológicas, equipamentos eletrônicos e uniformes, além daquelas em que há padarias, açougue e, até mesmo, uma fábrica de gessos. Pelo trabalho, os presos recebem remição de pena - a cada três dias trabalhados, um a menos no cumprimento da sentença – e, em muitos casos, remuneração (normalmente, ¾ do salário mínimo). O principal retorno, no entanto, não pode ser contabilizado: é a oportunidade de começar uma vida nova, ainda dentro dos presídios e penitenciárias.

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