'Causos' do avô inspiraram vencedor do Prêmio Governo de Minas de Literatura

Com a obra "Ylus, o dragão de papel", Estevão Bertoni, 24 anos, estudante de Engenharia Mecatrônica, em Ituiutaba, é o ganhador na categoria Jovem Escritor Mineiro

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Estevão Bertoni, ganhador do Prêmio Governo de Minas de Literatura, na categoria Jovem Escritor Mineiro, realizado pelo jornal periódico Suplemento Literário, da Imprensa Oficial de Minas Gerais, por meio da Secretaria Estadual de Cultura
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“Eu acredito que tudo me levou à literatura”. Esta é a resposta do vencedor do Prêmio Governo de Minas de Literatura, na categoria Jovem Escritor Mineiro, quanto à principal pergunta dirigida a ele: “O que o fez aproximar da literatura?”.

Mineiro de “três” lugares, como costuma responder, Estevão Bertoni, 24 anos, nasceu em Uberlândia, cresceu em Ituiutaba e passou o final da infância e início da adolescência em Cachoeira Dourada, todas as cidades localizadas no Triângulo Mineiro. Atualmente, além de escritor, é estudante graduando em Engenharia Mecatrônica.

Caçula, com um irmão dois anos mais velho e pais divorciados, Bertoni recebeu a influência artística do pai músico e da mãe publicitária, também com formação em Artes Plásticas e História. Em sua casa, o escritor teve acesso a livros de poesia, contos, romances e além de ter contato com essa literatura, vivenciou inúmeras conversas e saraus com um grupo de pessoas ligadas à arte dentro de sua casa desde a tenra infância.

No entanto, a inspiração do jovem artista não partiu das rodas de conversa. Veio de seu avô materno que, segundo Bertoni, foi quem instigou sua convivência com a literatura - com os causos que o avô contava, com piadas regionalistas e o senso de humor afiado.

“Minha maior inspiração foi meu avô materno, que era um homem simples mas bem sábio - com ele eu aprendi sobre a natureza, sobre respeito pelos mais velhos, a arte do futebol e sobre música de raiz”, conta.

As principais referências literárias do escritor foram inicialmente Monteiro Lobato e Maurício de Souza, com o Chico Bento, e depois Quino, o cartunista argentino criador de Mafalda. A influência de Estevão Bertoni incluiu também Manuel Bandeira, Fernando Pessoa, Mário Quintana e Clarice Lispector.

Mais tarde leu outros mestres da literatura, como Machado de Assis, Veríssimo (o pai), Dostoievski, Kafka, Nietzsche, numa mistura sem fim de sociologia, antropologia entre outros interesses.

De acordo com o diretor do Suplemento Literário, jornal periódico de responsabilidade da Imprensa Oficial de Minas Gerais (IOFMG) e órgão responsável pelo Prêmio de Literatura, Jaime Prado Gouvêa, a premiação é importante para estimular à escrita e a leitura e para revelação de grandes nomes da literatura brasileira.

“É um prêmio nacional, vai além dos limites do estado contribuindo para a expansão da produção literária brasileira, e ao longo dos anos tem revelado boas surpresas no campo da literatura”, afirma o diretor.

Como forma de incentivar a produção literária no Estado e no país, a Secretaria de Estado de Cultura (SEC), por meio da Superintendência de Publicações e Suplemento Literário (SPSL), em sua 8ª edição, distribuiu R$ 212 mil para a produção literária incluindo categorias como, Ficção (conto), Poesia, Conjunto da Obra e Jovem Escritor Mineiro, na qual venceu Estevão Bertoni.

"Ylus, o dragão de papel"

Foi naquele ambiente simples e interiorano de Minas Gerais que surgiu "Ylus, o dragão de papel" – um livro de literatura fantástica. O conjunto da obra premiada de Estevão Bertoni conta a história de um dragão serpente que, em pleno século XXI,, nasce gasto, enrugado e aparentemente órfão de mãe, saído diretamente do desenho de Arthur, um cartunista sarcástico, desiludido, sem grana e cheio de problemas.

Ao ganhar vida no mundo real, Ylus é bem frágil, é feito de papel e também por isso sempre pega fogo quando espirra - afinal, é um dragão que solta fogo pelas ventas.

No enredo, a história de amor e ódio, loucura e paixão, realidade e fantasia mostra as contradições entre Arthur e Morganne, pai e mãe de Ylus, o dragão de papel. Arthur, o cartunista, seu criador e pai, tem um Ylus crescendo em seu corpo como uma tatuagem que a cada dia parece mais viva e ligam profundamente os dois personagens: criador e criatura.

Morganne, mãe de Ylus, é uma bruxa, oitava filha depois de uma prole de sete homens, e precisa de Ylus para não quebrar uma profecia de seu clã, ajudada por uma poderosa bruxa da família. Arthur e Morganne são antagonistas nesta história que faz alusão à Morgan Le Fay, a fada Morgana treinada por sua tia Viviane na Ilha de Avalon, e ao Rei Arthur, da Távola Redonda com quem ela teve um filho.

A obra traz uma visão contemporânea dentro de um contexto atual, mas com elementos do mundo da fantasia e o mistério de realidades paralelas. No contexto do livro, há uma clara alusão aos monstros que enfrentamos cotidianamente, como nossos dragões internos, o modo como somos influenciados pelos desejos, como nos deixamos levar pelos interesses pessoais e como, na mesma medida, somos suscetíveis ao mundo exterior.

De acordo com Bertoni, a ideia de "Ylus, o dragão de papel" começou em 2009 com um grande dragão de papercraft montado por ele, projetado por um papercraftista famoso norte-americano e que distribui suas criações de forma muito democrática e sem custos aos interessados nesta arte.

“Eu já estava mais ou menos habituado com a linguagem do papel e cola, mas o dragão me arrebatou. Foi paixão à primeira vista e que me fez pensar em um personagem, feito de papel, que na história, ganharia vida e sairia da prancheta do seu criador para se transformar em algo real, tridimensional”, explica.

O escritor enfatiza que o prêmio teve uma importância significativa em sua trajetória, pois além de ter repercussão nacional, foi uma surpresa a premiação de um projeto de fôlego. “O projeto envolveu muito trabalho, com a criação realística de um dragão inédito em 3D, o que exige produção artística na projeção do personagem, conhecimento tecnológico no desenvolvimento da peça, profissionais para o desenvolvimento do produto digital”, observa.

Ao final, o livro traz folhas impressas condicionadas para a montagem de um dragão em papercraft ou pepakura, um método de construção de objetos tridimensionais a partir de papel, semelhante ao kirigami (uma variação do origami japonês), usando também recorte e colagem; similar àquele que encantou e inspirou o jovem escritor.

Ficção, Poesia e Conjunto da Obra

Nas demais categorias do Prêmio Governo de Minas Gerais de Litertura venceram Jozias Benedicto de Moraes Neto, e Marcus Vinícius Teixeira Quiroga Pereira em Ficção (conto) e Poesia, respectivamente. Fábio Lucas Gomes foi o homenageado na categoria Conjunto da Obra. Já o vencedor na categoria Jovem Escritor Mineiro, Estevão Luís Bertoni Araújo e Silva, será contemplado com incentivo para pesquisa e elaboração de um livro.

Para o vencedor da categoria Poesia, Marcus Vinícius Teixeira Quiroga Pereira, um prêmio tem uma importância inestimável para divulgação do trabalho literário, especialmente quando é referente ao conjunto de toda uma obra.

“Este é um prêmio único, pois abrange um livro inteiro, por isso tem uma projeção mais ampla. E é um prêmio mineiro, estado que tanto gosto, então, há uma afinidade subjetiva para mim porque tenho uma relação afetiva com Minas Gerais, sua capital e suas cidades históricas. Por isso este prêmio, além de sua relevância nacional, tem um valor especial e particular para mim”, conta o poeta.

Os vencedores

Marcus Vinícius Teixeira Quiroga Pereira

O premiado da categoria Poesia, Marcus Vinícius, com a obra “Retablos de Frida Kahlo”, é poeta, contista, crítico e ensaísta. É doutor em Literatura Brasileira, membro da Academia Carioca de Letras e do PEN Clube de Brasil. Atualmente ministra oficinas literárias.

Autor de 20 livros, como “Manual de instruções para cegos”, “O xadrez e as palavras” e “Jardim das delícias”, já foi agraciado com prêmios da CBL (Jabuti), da Fundação Biblioteca Nacional, da UBE (Rio de Janeiro e São Paulo), entre outros. Colabora em diversas publicações literárias, como o Caderno Ideias (JB), o jornal Rioletras e as revistas Renovarte e da Academia Brasileira de Letras.

Jozias Benedicto de Moraes Neto

Contemplado com “Como não aprender a nadar”, Jozias é escritor e artista visual. Nasceu em São Luís (MA) em 1950, mas mora no Rio de Janeiro desde 1966, onde se graduou em Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ) e cursou a especialização “Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo” (PUC-RJ).

Como artista visual, participou, entre outras mostras, da XVI Bienal de São Paulo (1981), e atualmente desenvolve videoinstalações que unem literatura (ficção) e artes visuais (vídeo), trabalho já exibido em diversas mostras individuais e coletivas no Rio de Janeiro, Belo Horizonte (“Videoarte 2013”, no Oi Futuro BH), Teresina e Lisboa. Seu primeiro livro de contos, “Estranhas criaturas noturnas”, lançado em 2013 pela Editora Apicuri (Rio), foi finalista do Concurso SESC de Literatura 2012/2013.

Fábio Lucas Gomes

Fábio Lucas, premiado na categoria Conjunto da Obra nasceu na cidade de Esmeraldas (MG), em 1931. Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), concluiu seu doutorado e livre-docência em Economia, no ano de 1963.

Na década de 1950, participou da fundação das revistas Vocação (1951) e Tendência (1956) em Belo Horizonte, tendo como companheiros o poeta Affonso Ávila e o romancista Ruy Mourão, entre outros. Desde essa época, exerceu a crítica literária em jornais e revistas, escrevendo inúmeras obras nessa temática e também de estudos sociais.

Fábio lecionou Literatura Brasileira em várias universidades no exterior. Integra a Academia Mineira e a Academia Paulista de Letras. Foi presidente da União Brasileira de Escritores por vários mandatos, além de diretor do Instituto Nacional do Livro.

Tem sido convidado para integrar Comissões Julgadoras de prêmios literários de projeção internacional, como, entre outros, o Prêmio Camões (Portugal-Brasil) e o Prêmio Casa de las Américas (Cuba).

Estevão Luís Bertoni Araújo

Antes de vencer na categoria Jovem Escritor Mineiro, com a obra "Ylus, o dragão de papel", Estevão Bertoni participou, de 2004 a 2008, das edições da Agenda da Tribo como colaborador com poesias e textos. Venceu, em 2006, o 12º Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação/Projeto Memória, com o trabalho: “Quem tem medo de Nísia Floresta?”. No ano seguinte, 2007, com 16 anos, venceu o Prêmio Branquinho da Fonseca, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal, com um livro infanto-juvenil intitulado "O Dono da Festa", editado em 2008 no país.

Sobre o Prêmio

O Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura foi lançado em dezembro de 2007, para promover e divulgar a literatura brasileira, reconhecendo grandes nomes nacionais e abrindo espaço para os jovens escritores mineiros. O prêmio é dividido em quatro categorias: I - Conjunto da Obra (homenagem a um escritor brasileiro em atividade), II - Poesia, III - Ficção e IV - Jovem Escritor Mineiro.

Nas categorias Poesia e Ficção, o Prêmio é aberto a escritores iniciantes e/ou profissionais, maiores de 18 anos, nascidos e residentes em território nacional. Já a categoria Jovem Escritor Mineiro é restrita a pessoas com idade entre 18 e 25 anos, nascidas em Minas Gerais ou residentes no Estado há pelo menos cinco anos.

Entre os escritores que já foram homenageados na categoria Conjunto da Obra, estão Ferreira Gullar (2013), Rui Mourão (2012), Affonso Ávila (2011), Silviano Santiago (2010), Luís Fernando Veríssimo (2009), Sérgio Sant’Anna (2008) e Antonio Candido (2007).



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