Doação de instrumentos assegura a preservação de bandas de música mineiras

Peças contribuem para a manutenção de tradicionais conjuntos musicais, que cumprem importante papel social no interior

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Estima-se que 100 mil pessoas sejam diretamente beneficiadas pelas atividades das bandas de música
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Fundada em 1899, a centenária banda de Santa Cecília, do município de Mariana, no Território Metropolitano, é uma das mais antigas sociedades musicais do estado ainda em atividade. Em seus mais de 110 anos de muita história, a banda coleciona incontáveis exibições, algumas memoráveis, em eventos cívicos e religiosos na cidade e arredores.

Um dos personagens que acompanhou boa parte da recente trajetória da corporação musical é José Luiz Papa, presidente por 26 anos e atualmente um dos diretores da banda. Hoje com 50 anos de idade, José Luiz conta que dedicou 43 anos à banda. Incentivado pelo avô, ele ingressou no conjunto ainda muito jovem, com apenas 7 anos, como mascote.

“Minha vida é quase uma banda de música. É uma tradição de família. Se eu sou a pessoa que sou hoje, foi a música que me deu”

José Luiz Papa, músico e diretor da banda de Santa Cecília

José Luiz toca bateria, percussão e baixo. À frente da banda há muitos anos, José Luiz conhece como ninguém as dificuldades de manter uma agenda com ensaios quase que diários e apresentações aos finais de semana.

Governo entrega instrumentos em fevereiro deste ano. Foto: Manoel Marques/Imprensa MG

Para o músico, a sobrevivência da Santa Cecília só é possível graças ao apoio daqueles que valorizam uma das mais antigas tradições mineiras. Dentre os incentivadores, ele cita o Governo de Minas Gerais que, por meio do programa Bandas de Minas, doa instrumentos às corporações musicais de todo o estado.

Na última entrega, realizada em duas etapas em fevereiro deste ano, a Santa Cecília foi uma das contempladas. O Estado repassou 448 instrumentos musicais a 85 bandas de 74 municípios mineiros. “Isso é a prova de um governo comprometido com a cultura de Minas Gerais. Os instrumentos são a garantia da continuidade do nosso trabalho”, ressalta José Luiz.

Instrumentos afinados

Embora o programa já exista desde 2003, o músico elogia a qualidade dos materiais entregues recentemente. “Esse ano o Governo está fazendo diferente. Está preocupado, inclusive, com a qualidade dos instrumentos. Isso é visível e é um diferencial enorme. Em outros anos já chegamos a receber instrumentos sem condições de usar. Alguns até danificados”, compara.

Nesta edição, a escolha dos instrumentos adquiridos contou com aval rigoroso e técnico de músicos da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, corpo artístico vinculado à Fundação Clóvis Salgado, para garantia da excelência das apresentações mineiras. Ao todo, foram investidos R$ 1 milhão por meio de convênio entre a Secretaria de Estado de Cultura (SEC) e a Codemig.

Dentre os instrumentos entregues estão trompas, clarinetes, flautas, saxofones, trompetes, trombones, pratos, surdos e bumbos. Outros ainda serão doados neste semestre, encerrando as entregas do edital de 2015. Um novo edital, que pela primeira vez também vai contemplar as bandas militares, vai ser publicado no segundo semestre deste ano.

Patrimônio imaterial

Bandas são atrações no interior. Foto: Divulgação/SEC

Minas Gerais abriga o maior número de bandas de música entre os estados da federação. Patrimônio do povo mineiro, somente cadastradas pela SEC são 691 corporações civis, guardiãs de uma tradição de longa data e celeiro fértil de músicos de qualidade. Contam-se mais de 30 mil músicos, de todas as idades e procedências.

Um dos que ajudam a preservar e escrever essa história é o maestro-adjunto da Sociedade Andrelandense Musical São Pio X, Wilson Roberto Silva Pereira, o Wilsinho, 35 anos. Na verdade, não só ele, mas toda a sua família respira arte, sendo a responsável por conduzir a centenária corporação musical através dos séculos na cidade de Andrelândia, Território Mata.

A banda foi fundada no Século XIX por seus familiares e, ao longo dos anos, seus antepassados mantiveram viva a tradição local. Atualmente, quatro gerações da família dão continuidade a esse legado. Além de Wilsinho, também compõem o quadro de músicos da banda seu avô, pai – o maestro – e filho, que com sete anos é o mais novo mascote da corporação.

“Sou de uma família de músicos. Minha família toda mexe com música. O amor pela música que atravessa gerações”

Wilson Roberto Pereira, maestro-adjunto da Sociedade Andrelandense Musical São Pio X 

Em 1998, Wilsinho já havia assumido a posição de maestro-adjunto. Sob sua batuta dos maestros – pai e filho – estão 65 músicos que se apresentam nos eventos festivos de Andrelândia e região.

“A banda presta um grande serviço social para a comunidade. Participamos da vida social da cidade, das festas cívicas e religiosas. Na Semana Santa, por exemplo, tocamos todos os dias, domingo a domingo”, conta o maestro-adjunto da Sociedade Andrelandense Musical São Pio X, que também já foi contemplada em um dos editais do programa Bandas de Minas.

Escolas de música

Bandas ensinam música aos jovens. Foto: Veronica Manevy/Imprensa MG

Estima-se que 100 mil pessoas sejam diretamente beneficiadas pelas atividades das bandas de música. De modo popular e espontâneo, em torno delas são organizadas verdadeiras escolas de música, onde comunidades, famílias e pessoas de todas as idades têm a oportunidade de exercitar talentos e descobrir vocações artísticas.

Esse foi o caso de Maria Alice, 60 anos, professora aposentada que começou a estudar música em 2013 na banda São Vicente, no município de Baldim, Território Metropolitano. Pertencente a uma família de músicos, Maria Alice nunca havia tido a oportunidade de se dedicar àquela que é considera a primeira arte. Após os estudos, hoje ela toca clarineta e participa dos shows.

“É maravilhoso, é ótimo poder ter uma distração. Gosto demais. Goste mais ainda porque meus filhos estão tocando e estão animados em continuar”, salienta Maria Alice. “Minha primeira apresentação foi especial e a música que toquei foi maravilhosa. Cada apresentação é única. É muito bom, é muito gostoso”, diz, reiterando a sua satisfação.

Maria Alice divide espaço na banda com outros 40 instrumentistas. Dentre eles está a jovem Carolina Gonçalves Martins, 16 anos, que também iniciou os estudos na banda São Vicente e toca clarineta. Quando questionada sobre qual apresentação mais marcou sua vida, a jovem não titubeou. “O Marcus Vianna esteve aqui e foi uma experiência incrível”, recorda.

As duas instrumentistas estão sob a regência do maestro Milton Henrique de Souza Brasil, que comanda a banda do pequeno distrito de São Vicente – são pouco mais de três mil habitantes – desde sua criação, em 2012. “Eu que iniciei as turmas e, atualmente, temos 20 crianças na escola”, explica o maestro. “A banda é a alegria do distrito e da cidade”, afirma, com orgulho.

“O trabalho aqui é muito positivo. Os músicos são dedicados e a diretoria da banda também é muito dedicada. Todos se empenham e o trabalho é bastante prazeroso. Sem a ajuda do Governo ficaria bastante complicado realizar esse trabalho”, acrescenta Milton. A banda São Vicente também já foi contemplada em um dos editais do programa Bandas de Minas.



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