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“É possível sonhar”, livro publicado pela Penitenciária José Maria Alkimin, revela histórias passadas e sonhos futuros de detentos

Edição de crônicas e poemas com reflexões sobre o sistema educacional e prisional de Minas Gerais comemora os 50 anos de atividades da Escola Estadual César Lombroso

Sexta-feira | 25/12/2015 | 10:03·Atualizado em 29/06/2016 | 00:36
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Livro "É possível sonhar", publicado pela Escola Estadual César Lombroso, da Penitenciária José Maria Alkimin
Livro "É possível sonhar", publicado pela Escola Estadual César Lombroso, da Penitenciária José Maria Alkimin / Crédito: Omar Freire/Imprensa MG

“Um menino sonhador, ao engatinhar, já sonhava em andar. Pela sua expressão e ousadia todos tinham certeza dos seus caminhos. Já moço cheio de planos e sonhos não desistia, mesmo em meio às frustrações. Pelo contrário, ele se fortalecia. Acreditava que em cada passo ele adquiria experiência para alcançar seus objetivos”.

O trecho de abertura da crônica “A Ciência do Olhar”, do aluno Luciano França Dias, publicado no livro “É possível sonhar”, é uma síntese do reconhecimento da importância da publicação para os detentos e alunos da Escola Estadual César Lombroso (EECL), da Penitenciária José Maria Alkimin.

O livro reúne textos de presos, alunos da escola, professores, juízes e pedagogos. São crônicas e poemas com reflexões sobre o sistema educacional e prisional de Minas Gerais.

Crédito: Omar Freire/Imprensa MG

A publicação ganhou contornos com o apoio da Academia de Letras de Ribeirão da Neves (Anelca), representada pelo presidente Mauro Moares, e da Editora Literato, que editou e distribuiu o livro, criado para comemorar os 50 anos de atividades da Escola Estadual César Lombroso – que oferece ensino fundamental e médio, Educação de Jovens e Adultos no Ensino Regular (EJA) e superior à distância –, da Penitenciária José Maria Alkimin, a mais antiga em funcionamento no Brasil.

“A nossa escola foi o embrião para instituições instaladas dentro de outras unidades como a do Presídio Feminino José Abranches Gonçalves e do Presídio José Martinho Drumond, ambos em Ribeirão das Neves. E a publicação “É preciso sonhar” consagra essa trajetória”, destaca o diretor-geral da penitenciária, Reginaldo Santos Soares.

De acordo com a diretora de Atendimento ao Preso e Ressocialização, Hélia Gonçalves, o livro envolveu todas as disciplinas da escola e corpo docente e discente e promoveu a integração dos servidores da unidade, criando um ambiente “sem barreiras”, unidos pela educação e avanço destes jovens – com novas oportunidades dignas de vida.

“A educação é a primeira e maior manifestação do que o detento deseja se reintegrar na sociedade. O aluno sentenciado dá um valor muito maior ao ensino, a essa segunda oportunidade eles agarram com todas as forças”, observa Hélia.

Vivências e fantasias

Desabafos, vivências e fantasias são retratados em doces palavras que compõem a obra. As páginas trazem escrituras e registros literários de momentos íntimos tecidos com histórias passadas e sonhos futuros, pensamentos fictícios ou reais em um conjunto onde todos têm voz, onde é possível sonhar.

“Ninguém pode voltar atrás e fazer um novo começo. Mas qualquer um pode recomeçar e fazer um novo fim”, escreve o aluno Bruno Edison Cardoso Ruas em sua crônica “A infância bem vivida, futuro destruído”, manifestando os desejos de um futuro promissor que destaca um processo de conscientização e a esperança no recomeço.

Crédito: Omar Freire/Imprensa MG

O diretor-geral da escola e professor de Geografia, Marcos Fernandes Rafael, há 12 anos na EECL, explica que o livro é resultado do projeto Viajando na Leitura, concebido para incentivar os presos alunos a ler mais. Marcos Rafael, um dos autores, diz que, apesar das dificuldades inerentes ao ambiente carcerário, o trabalho do educador é recompensado.

O poema “A senhora de cinquenta anos”, de Marcos, traz à memória vivências de mais de uma década do primeiro espaço destinado à educação de detentos do país.

“(...) Vi a mudança de PM para Agentes / Vi todos soltos aqui / Vi, também, muitos agentes apoiadores e que acreditam na educação aqui / Vi professores e funcionários indo além de seus deveres aqui / Vi filas e filas de mães e parentes”.

Perguntado de onde veio a inspiração para escrever sobre o tema do tempo de existência da escola, Marcos diz que “veio do que meus olhos viram” em 12 anos de trabalho no local.

“Quis expor o que vivenciamos aqui ao longo dos anos porque sinto que a escola é um pouco a minha vida. Assim, tive a oportunidade, entre dificuldades e conquistas, de ver de perto o crescimento dos alunos e da EECL. Por isso, foi o tema que refletiu meu sentimento sobre este espaço tão rico de convivência com pessoas que estão abertas às novas oportunidades”, ilustra Marcos.

“O trabalho e a dedicação dos meninos são bonitos, incentivam e estimulam, possibilitam os próprios alunos a verem que têm talento nato ou que podem desenvolvê-lo, ao contrário de serem socialmente subjugados”, enfatiza Hélia Gonçalves.

“Hoje tenho a certeza de que quase tudo o que acreditava era grande ilusão, por isso a esperança renasce a cada raio de sol, a cada minuto que passa meu objetivo está próximo de SER alcançado (...) / Recomeçar de novo é permitir-se inclusive novos enganos, erros, fragilidades, mas não os mesmos erros”, conclui em seu poema o aluno Bruno Edison Cardoso Ruas.

Segundo a diretora de Atendimento ao Preso e Ressocialização, Hélia Gonçalves, os responsáveis da Escola Estadual César Lombroso, o diretor Marcos Fernandes Rafael, e a vice-diretora da escola, Dardânia Barbosa, irão tentar editar um livro anualmente.

O livro é distribuído para setores do Governo, como a Secretaria de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania (Sedpac), a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais e outras instituições sem fins lucrativos, com o objetivo de divulgar o trabalho.