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Centro mineiro é referência nacional no tratamento de drogas

Segunda-feira | 25/06/2007 | 17:18·Atualizado em 29/05/2013 | 23:55
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BELO HORIZONTE (25/06/07) - O mais antigo serviço do SUS (Sistema Único de Saúde) no atendimento aos usuários de drogas no país, o Centro Mineiro de Toxicomania/ CMT – da Rede Fhemig – é hoje um dos oito centros de excelência reconhecidos pelo governo federal. O CMT é classificado pela Secretaria Nacional Anti-Drogas (Senad) como Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas – CAPS-AD II, atendendo Belo Horizonte e Região Metropolitana.

Os quase 24 anos de atendimento renderam experiência e reconhecimento aos profissionais do Centro. Experiência que se destaca pelo diferencial de que o foco é o paciente, não a droga. Cada dependente recebe um projeto terapêutico individualizado, que vai desde atendimento médico a oficinas de arte, passando pelas terapias ambulatoriais.

“Como a maioria de nossos usuários apresenta problemas de saúde, decorrentes do uso de drogas e álcool, o primeiro passo é o atendimento médico. Entretanto, o mais importante é o tratamento psíquico, feito nos consultórios. Outro momento relevante neste processo é a inserção nas oficinas terapêuticas e de geração de renda, onde os pacientes aprendem a confeccionar peças que podem vir a ajudá-lo a se manter – inclusive financeiramente - na sociedade. Além, é claro, de despertar sua auto-estima que, em geral, está bastante abalada quando chegam aqui”, explica a psicóloga da unidade, Antonieta Bizzotto.

Atualmente, o CMT comporta 45 pacientes por turno (manhã e tarde). Dependendo de cada caso, os pacientes são divididos em módulos de freqüência intensiva (todos os dias), semi-intensiva (até três vezes por semana) e não intensiva (apenas uma vez por semana). E novos pacientes são admitidos todos os dias, de acordo com a avaliação dos casos e a capacidade de atendimento da unidade.

O perfil do público do CMT tem suas singularidades: mais de 50% têm dependência alcoólica; cerca de 30% são usuários de cocaína e crack e, os outros 20%, das mais variadas drogas. A dependência de drogas (incluindo sempre o álcool) geralmente se inicia entre os 10 e 15 anos de idade, como revela a psicóloga. O alcoólico chega ao CMT depois de 20, 30 anos de vício. O crack é cruelmente mais agressivo: a degradação é bem mais rápida, não chegando a um ano.

Esta droga chegou em 98, na capital mineira, e os seus efeitos são os mais preocupantes. Segundo um estudo de James Iniciardi, sociólogo norte-americano, em torno do crack há um aumento de 20% da violência urbana. Drogas, como o crack, são responsáveis pela criminalização da toxicomania: “a cultura dos anos 70, de que droga era a canalização da ‘paz e amor’ pregada pelos hippies, da loucura dos anos 80, hoje restou a relação das drogas com o submundo do crime; há um forte vínculo social, semelhante à própria pirâmide do país. A maioria está em situação precária, nas ruas, mas temos uma minoria de classes média e alta aqui”, analisa Antonieta.

Dia Internacional

Um erro comum é pensar que a droga pode provocar a loucura. “Só é louco quem pode”, lembra Antonieta, citando uma frase conhecida dentro da Psicanálise. As drogas podem, isto sim, provocar o surto psicótico em quem tem propensão a desenvolver problemas psiquiátricos. “Mas é claro que existem as lesões, tanto neurológicas quanto físicas, no sujeito que usa drogas”.

Existem três grupos de drogas: as depressoras (álcool, heroína, soníferos, inalantes etc.), as estimulantes (cocaína, crack, nicotina, cafeína etc.) e perturbadoras (maconha, êxtase, LSD, chá de lírio etc.). “Drogas não são saídas para se resolver os problemas. Pelo contrário, causam mais um problema difícil de superar. É importante saber que, na maioria dos casos, é possível o tratamento, especializado, que ajude a reduzir os danos mentais, físicos e sociais associados ao abuso de álcool e de outras drogas”.

O CMT não possui um índice próprio de recuperação de seus usuários, mas a psicóloga acredita que deve ficar dentro dos parâmetros internacionais, ou seja, 70% de fracasso e 30% de sucesso. As famílias também são acolhidas e orientadas sobre o tratamento, o que ajuda na “fidelização” dos pacientes.

“Ganhei uma família”

A ex-doméstica O.B.C., de 52 anos, tem uma história que se repete dentro do CMT. Infância difícil, marcada pela violência, a ilusão da busca de paz pelo álcool e a luta para deixá-lo. “A minha revolta me levou a beber. Sei que não posso parar de um dia para o outro; até hoje bebo nos finais de semana para não ficar nervosa”.

Enquanto tece um vistoso cachecol no tear da oficina, vai contando sua história, com tantas tramas quanto esta peça. “Fui ‘formiguinha’ de rua, criei quatro filhos, que foram o que restou de toda minha família. Esta é a primeira vez que tento parar de beber. E encontrei uma outra família, melhorei muito nos últimos seis meses que estou aqui”.

O faz cachecóis até de madrugada em casa, o que garante um “dinheirinho” para se sustentar. E sabe que esta será a diferença daqui em diante: “Ainda não sei o que vai acontecer quando eu sair, daqui a um mês. Mas Deus vai me ajudar”.

Centro Mineiro

A equipe profissional da unidade é multidisciplinar: são médicos, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas ocupacionais, bibliotecária e até uma antropóloga. São seis consultórios, biblioteca, espaço-dia com quadra, refeitório, salão para oficinas e o Núcleo de Educação Permanente (NEP).

O serviço foi inaugurado pelo então governador Tancredo Neves, em 83, no Hospital Maria Amélia Lins, como Unidade de Reintegração Social. Transferido para o bairro Sion, recebeu aí o nome que manteve até hoje: Centro Mineiro de Toxicomania, que funciona, desde 88, no atual endereço: Alameda Ezequiel Dias, 365 – Santa Efigênia, Belo Horizonte. Telefone para informações: (31) 3273-5844.

V Feira de Arte

Nesta terça-feira (26), o Centro Mineiro de Toxicomania promove a quinta edição da Feira de Arte. Estarão à venda produtos artesanais – cachecóis, bijouterias, porta-retratos e potes de papel reciclado etc. – feitos pelos próprios usuários da unidade nas oficinas terapêuticas. A renda é destinada para estes usuários e para a compra do material utilizado nas oficinas. A feira é aberta ao público, no estacionamento da unidade, de 10h30 às 15h30.

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