Fórum em BH debate intoxicação com agentes cáusticos
BELO HORIZONTE (13/11/08) - BELO HORIZONTE (13/11/08) - Todo cuidado é pouco em uma casa que tem criança. São vários perigos à espreita, diante da curiosidade infantil. E um dos principais são os produtos à base de agentes cáusticos, que, se ingeridos, podem deixar seqüelas graves e até mesmo matar. Pensando na prevenção do problema, será realizado, nesta sexta-feira (14), a partir das 8h, no Ouro Minas Palace Hotel, em Belo Horizonte, o I Fórum de Ingestão de Produtos Cáusticos, evento que conta com o apoio da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig).
Os números impressionam. Somente no ano passado os acidentes, com esse tipo de produto, foram responsáveis por 288 atendimentos no Hospital de Pronto-Socorro João XXIII (HPS) – crescimento de 54% em relação ao ano anterior (187 casos). Até outubro deste ano foram 179 casos. Após a intervenção de urgência, as vítimas da ingestão de agentes cáusticos ainda têm que se submeter a longos e dolorosos tratamentos de recuperação, que, na Rede Fhemig, estão a cargo do Hospital Infantil João Paulo II.
“A maioria das vítimas de acidentes com agentes cáusticos são crianças menores de cinco anos que, em uma mistura da curiosidade infantil e imprudência dos pais, podem morrer ou ser condenadas a ter problemas digestivos para o resto da vida. A maioria dos acidentes ocorre em famílias de baixa renda e a educação para a prevenção ainda é a melhor opção”, afirma o médico endoscopista da Rede Fhemig, Paulo Fernando Souto Bittencourt.
O que aconteceu com o estudante Jorge Luiz Oliveira, 8 anos, atesta a gravidade do problema. Morador da cidade de Paraguaçu, no Sul de Minas, ele bebeu soda cáustica diluída em água quando tinha apenas dois anos. O produto foi deixado em um copo de plástico sobre a mesa da cozinha por sua mãe, a dona de casa Creudes Santos Oliveira, 32 anos. Ela conta que nunca havia usado soda cáustica como produto de limpeza, mas, na ocasião, resolveu experimentar na faxina pesada da casa para onde acabara de se mudar.
“Eu me distraí por alguns momentos e ele bebeu. Se eu pudesse voltar no tempo, teria mais cuidado. Só vi quando ele começou a chorar, com a boca, o pescoço e o peito todos vermelhos por causa da soda cáustica”, conta Creudes. Em casos assim, o conselho dos especialistas é procurar atendimento médico o mais rápido possível. “O melhor é não fazer nada, não provocar vômito ou dar leite à vítima, por exemplo. Isso só agrava o problema. A vítima precisa chegar a um hospital para receber atendimento de urgência, pois corre risco de morte”, adverte Paulo Bittencourt.
“Arrependo-me todos os dias. Sempre guardei meus produtos de limpeza em armários altos, de difícil acesso. Esse produto não serve para limpeza, só serve para fazer estrago na vida de uma família. Meu filho ficou três meses internado em um hospital de Alfenas e, depois, mais nove meses no Hospital João XXIII. Após a alta, durante quatro anos tive de trazê-lo toda semana para o tratamento em Belo Horizonte e, há dois anos, viajo cinco horas pelo menos uma vez por mês”, lamenta Creudes, com os olhos cheios de lágrimas, abraçada ao filho, cujo olhar triste após mais uma sessão de endoscopia não deixa dúvidas da gravidade do problema.
O tratamento, segundo Paulo Bittencourt, tem como objetivo, principalmente, manter o esôfago distendido, já que, com as queimaduras, ele se fecha e dificulta a alimentação do paciente. Com o passar do tempo, esse tipo de paciente pode desenvolver outros problemas, como câncer de esôfago - a probabilidade cresce 3 mil vezes em relação a uma pessoa comum. “É um tratamento por meio de endoscopia, que dura anos. Em casos mais graves, é preciso uma cirurgia para extrair o esôfago. Usamos um pedaço do estômago ou do intestino para reparar a parte lesada”, explica.
Prevenção
Devido a casos assim, o especialista recomenda que a melhor medida ainda é a prevenção. “Os pais precisam entender que os produtos de limpeza devem ser guardados em local seguro, longe do alcance de crianças. E produtos que tenham agentes cáusticos como princípio ativo devem ser banidos das residências e também do comércio. Nos países desenvolvidos, produtos que representam algum perigo vêm em embalagens especiais, difíceis de abrir, à prova da curiosidade das crianças. Isso precisa ser copiado urgentemente pelo Brasil”, alerta.
Por esse motivo, durante o I Fórum de Ingestão de Produtos Cáusticos, um dos assuntos em pauta é justamente o Projeto de Lei 4.841-A/94, que regulamenta a comercialização desses produtos. Nesse tópico, dois palestrantes são os deputados estaduais Délio Malheiros e Roberto Carvalho. “Além do caráter educativo, o fórum terá um foco científico, englobando todos os aspectos da abordagem médica desse tipo de problema. Nesse evento, pretendemos acertar dois protocolos de atendimento para normatizar as condutas, tanto nos casos agudos, de urgência, quanto no tratamento do paciente crônico”, conta. Além de Paulo Bittencourt, participam da organização do Fórum as médicas Roberta Nogueira de Sá e Marislaine Lumena de Mendonça.
Será discutido também o acompanhamento psicossocial desses pacientes, por que, apesar de representarem uma pequena parcela, há casos de tentativa de suicídio entre adolescentes pela ingestão de soda cáustica. O I Fórum de Ingestão de Produtos Cáusticos integra a programação do VI Seminário Mineiro de Gastroenterologia e Endoscopia Digestiva, que começou nesta quinta-feira (13) e prossegue até sábado (15). Na programação, estão ainda o II Simpósio de Hepatites Virais de Minas Gerais e o I Curso de Colonoscopia da Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed-MG).

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