Oficina de teatro muda cotidiano de presídio feminino
BELO HORIZONTE (08/08/08) - O dia a dia de 20 detentas do Presídio Feminino José Abranches Gonçalves, em Ribeirão das Neves, ganhou caras, bocas, empostação de voz e a encarnação dos mais diversos personagens. A transformação do cotidiano da unidade prisional começou com a oficina de teatro ministrada pela atriz Leandra Batista, integrante do grupo “Comboio Encena”. O trabalho voluntário da artista foi idealizado por ela, após ter usado o presídio como laboratório para compor sua personagem na peça “Ave Libertas Cervantes Saavedra”, em cartaz no Teatro Sesiminas.
A atriz conheceu de perto o trabalho de agentes penitenciários do sistema prisional mineiro e surpreendeu-se com o que viu. “É muito diferente do que eu conhecia de filmes e novelas brasileiras. Passei a entender melhor o papel das agentes e me emocionar com as histórias de vida das presas”, explica a atriz. Ao mesmo tempo, ela percebeu que a ajuda recebida poderia ser retribuída. “Senti que técnicas de teatro poderiam ajudar muito essas mulheres, a maioria precisa trabalhar a auto-estima, aprender a se valorizar e a se descobrir”, completa Leandra.
A partir daí, a unidade prisional disponibilizou um espaço para Leandra ministrar uma oficina de teatro para as presas. No primeiro semestre, numa experiência-piloto, 20 alunas participaram. “Comecei trabalhando com todas as detentas durante o banho de sol. Com o tempo, percebi quais eram as mulheres que mais se interessavam e propus uma oficina completa a 20 delas. Dessas, nove vão continuar o curso no segundo semestre, e outras terão oportunidade de começar”, esclarece a atriz.
A diretora de atendimento do José Abranches, Isabel Linhares, conta que é visível a melhora no comportamento das 20 primeiras alunas, que ficaram mais alegres e tranqüilas. “Uma delas estava com problemas para dormir. Após o período de aulas, ela não sentiu mais necessidade de medicação”, ilustra a diretora.
As aulas são baseadas nas técnicas de jogos teatrais e improvisação. A professora conta que, “com isso, conseguimos trabalhar concentração, a atenção e o olhar. Utilizo também cantigas de roda para trabalhar a memória”.
Direito recuperado
As detentas aprovaram. Para Rosemary Aparecida, de 23 anos, o maior desafio é falar em público. Quem vê a moça tímida, falando baixinho, não imagina que, durante as aulas, ela se transforma em outra mulher, com vozeirão forte e boa expressão corporal. “Eu me solto, esqueço dos problemas e percebo que nada é impossível. Toda criança sonha em ser artista, mas a vida dura nos impede de sonhar. Aqui recuperei esse direito”, afirmou.
Já Flávia Márcia, de 22 anos, diz que sempre gostou de teatro. Na escola, participava de todas as apresentações, mas sentia falta de um maior respaldo técnico. “Quando sair daqui, vou procurar algum curso. Assim, não trabalho só o corpo, mas também o psicológico. E, isso não vai ser bom só para mim, tudo o que aprendo aqui, vou ensinar para o meu filho”, disse a presa, que é mãe de uma criança especial de 4 anos.
Mais arte
Mas não é só. Pensando em levar cultura a um número ainda maior de detentas, a partir do próximo mês, o José Abranches deverá instituir a Quinta Cultural. A cada quinze dias, durante o banho de sol da manhã, haverá apresentações de mágica, canto, números circenses, teatro e outras manifestações artísticas.
No encerramento das atividades do primeiro semestre, o grupo “Comboio Encena" apresentou o espetáculo “Mulheres G”, que conta a história de uma mulher que procura a felicidade após muitas derrotas. A intenção é que, ao término dessa oficina, as detentas sejam as atrizes da próxima peça a ser apresentada no presídio.
As atividades laborais, culturais, esportivas e educacionais nas unidades prisionais de Minas fazem parte do programa de ressocialização dos detentos, da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Atualmente, são oferecidos Ensino Fundamental e Médio, em escolas regulares, nas várias modalidades de ensino (à distância/telecurso, educação de jovens e adultos e presencial), por meio de um convênio com a Secretaria de Estado da Educação (SEE). Os presos também podem trabalhar em atividades que vão desde a agricultura à área industrial. Todos recebem, ainda, assistência jurídica, psicológica e de saúde.
Segundo o Subsecretario de Administração Prisional da Seds, Genilson Zeferino, investir em cultura é investir em ressocialização. “Os resultados mostram que através das aulas de teatro elas conseguiram recuperar a auto-estima, a vontade de viver. Essa é a intenção do sistema prisional: garantir que o detento cumpra a pena em segurança e que tenha condições de retornar para a sociedade melhor do que saiu”, afirmou.
No Presídio José Abranches, além de aulas de teatro, as presas podem trabalhar em horticultura, tapeçaria, salão de beleza e, através de convênios com a iniciativa privada, têm a oportunidade de trabalhar montando alarmes e confeccionando fôrma de papel para bolo.
A Seds administra 67 unidades prisionais entre hospitais presídios penitenciarias, centro de apoio e casas de albergados. Atualmente, o sistema conta com 26.604 presos, destes 4.647 estão estudando e 4.264 trabalhando (dentro e fora das unidades).

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