Projeto vencedor de prêmio promove qualidade de vida
UBERABA (27/01/09) - A manhã nublada com ameaça de chuva não impede que os moradores da comunidade de Cartafina, em Uberaba, no Triângulo mineiro, compareçam ao compromisso que têm duas vezes por semana. Há cerca de um ano, todas as terças e sextas-feiras, dezenas de pessoas se reúnem na quadra do bairro para uma sessão de cuidados com a saúde, como a medição da pressão arterial. Mas o motivo para a presença de tanta gente é a Ginástica Orientada, a principal atividade do dia.
O Projeto Ginástica Orientada ganhou o reconhecimento da Secretaria de Estado de Saúde (SES) que, no final de 2008, concedeu a essa experiência o primeiro lugar do Prêmio Dario Tavares. A premiação, criada em 2006, tem por objetivo valorizar iniciativas na construção de uma nova forma de promover saúde, enfocando a Atenção Primária.
Desenvolvido por meio de parceria entre as Secretarias Municipais de Saúde e a de Esportes, o Projeto Ginástica Orientada prevê a realização de uma hora de exercícios físicos para toda a população, de duas a três vezes por semana, em várias regiões do município de Uberaba. A ação é desenvolvida com o acompanhamento das equipes de saúde da família e conduzida por profissionais de educação física. Tem também a orientação e o apoio do pessoal da Vigilância Nutricional e ainda do Hiperdia.
“Trata-se de uma ação multidisciplinar, que tem por objetivo promover a saúde. Além de oferecer às pessoas um completo atendimento por meio do envolvimento de diversos setores, o projeto contém um ingrediente que influencia diretamente na qualidade de vida, que é a alegria, manifestada pelos profissionais que executam a ação. Esse é um aspecto que faz toda a diferença”, ressalta a diretora do Departamento de Atenção Básica do município, Maria Alice Modesto Veludo.
Em toda a cidade, há, atualmente, 2 mil pessoas praticando a ginástica. Tudo começou em 2006, com o trabalho voluntário de uma das professoras, Thaís Reis, idealizadora do projeto. Em 2007, as ações foram ampliadas para cinco comunidades e hoje já são 17 grupos em atividade.
“É, sem dúvida, motivo de muita satisfação ver toda essa evolução. E o mais importante é que começou por meio de uma iniciativa individual da Thaís e depois foi crescendo porque a própria população pediu. Uma comunidade foi passando para a outra e ainda hoje estamos atendendo ligações de pessoas solicitando a implantação da ginástica”, destaca a coordenadora municipal de atenção primária, Fernanda Carolina Camargo.
Acompanhamento
Antes da realização dos exercícios, uma enfermeira da equipe do Programa Saúde da Família da região fica responsável por medir a pressão arterial das pessoas. Caso haja alguma alteração, elas são encaminhadas para a Unidade Básica, onde recebem atendimento médico e orientações.
“Às vezes, a variação da pressão é apenas porque a pessoa não tomou o café da manhã. Então explicamos que é preciso se alimentar antes de se submeter a uma atividade física”, explica a técnica em enfermagem do PSF Costa Teles I, Luciana Aparecida Prates.
Os agentes comunitários também participam da ginástica. Durante toda a sessão, eles ajudam a professora de educação física, observando a performance de cada participante. “Muitas pessoas têm dificuldade ao fazer algum dos exercícios e por isso ficamos atentos para ajudá-las. Além disso, com a nossa presença, incentivamos a participação dos moradores”, comenta a agente comunitária Neuseli Xavier da Silva. “E, quando alguém falta, a gente procura saber o motivo e cobra deles a freqüência”, completa a agente Cristiane Aguiar Junqueira.
A cada quatro meses, todos os participantes da atividade passam por uma avaliação mais completa, em que fazem exames de glicemia (verifica a quantidade de açúcar no sangue), se pesam, recebem orientações nutricionais e verificam o índice de massa corporal.
“Sou sempre a primeira a chegar e não perco um único dia de exercício. Para faltar, só se estiver doente, o que não tem acontecido depois que comecei a vir aqui”, comemora a aposentada Sebastiana Neves do Prado, de 61 anos. “A ginástica hoje já faz parte do meu dia-a-dia”, completa.
Transformação
“Tomei medicamentos para dores no corpo durante muito tempo, e nunca adiantou. Foi só começar a fazer os exercícios e me livrei dos remédios. É por isso que estou sempre aqui”, conta a dona de casa Glória Regina da Silva, de 61 anos, fazendo questão de lembrar que foi uma das primeiras moradoras a aderir à ginástica.
Há também quem afirme que os exercícios estão tornando as noites mais agradáveis. É o caso da dona de casa Nilza Batistel, de 67 anos, que diz ter se curado da insônia. Foi ela quem incentivou o marido, Leonardo Batistel, de 72 anos, a começar a praticar a atividade. “Hoje, nem preciso chamá-lo mais para vir. Se por algum motivo falo que não venho, é ele quem me anima”, diz Nilza.
Para a aposentada Maria do Rosário de Jesus, de 70 anos, os benefícios proporcionados pela ginástica vão muito além das melhorias para a saúde física. Segundo ela, o mais relevante são os laços de amizade criados durante as sessões de exercícios. “Aqui a gente ri, conversa, comemora aniversários, faz festa de confraternização. Somos como uma família, que não vive só de ginástica não”, brinca.
Para a professora de educação física Thaís Reis, a mudança na forma de encarar a vida é, sem dúvida, um das principais aspectos a serem ressaltados. Para ela, isso acontece porque os benefícios físicos refletem diretamente na saúde mental e psíquica das pessoas.“Tem gente que chega aqui sem conseguir fazer tarefas diárias, como amarrar os sapatos. Aí, depois que passa a se exercitar, volta a realizar essas atividades e se sente valorizado. Você vê a mudança na auto-estima acontecer de forma notória dia a dia; isso é muito gratificante”, afirma.
Dario Tavares
“O projeto vem ao encontro do conceito empregado nos Programas de Saúde da Família, que é a prevenção e a promoção da saúde. É essa linha que seguimos em todas as ações da atenção básica e por isso a SES reconhece as equipes que buscam um diferencial”, destaca a coordenadora da Atenção Primária da Gerência Regional de Uberaba, Luciana Mendes André.
Com a premiação, o projeto Ginástica Orientada receberá R$ 120 mil. O recurso será empregado na aquisição de materiais, como colchonetes, bem como na expansão da atividade para outras regiões.
“Queremos levar a ginástica para mais bairros e também para a zona rural. Também vamos estabelecer parceria com universidades, especialmente aquelas que contam com cursos de Educação Física ou voltados para a saúde. Nosso desejo é influenciar no perfil dos profissionais, fazendo com que eles saíam da academia conscientes de que precisam desempenhar uma função também social”, ressalta a coordenadora Fernanda Carolina Camargo.




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