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Arte do circo promove a inclusão social na 2ª Jornada

Segunda-feira | 10/12/2007 | 17:10·Atualizado em 15/05/2013 | 21:24
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BELO HORIZONTE (10/12/07) - O espetáculo "Somos todos brasileiros" reuniu na tarde de sábado (8), em Belo Horizonte, cerca de três mil pessoas, que lotaram a tenda circense onde, durante quatro horas, o ator Marcos Frota comandou diversas atrações. Malabaristas, pernas de pau, contorcionistas e palhaços levaram a magia do circo com a participação de artistas de diversas entidades que promovem a inclusão social das pessoas com deficiência e emocionaram as milhares de pessoas que compareceram à 2ª Jornada de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

Promovida pela Secretaria de Estado de Saúde (SES), em parceria com a Unicirco, no Centro Esportivo da Puc Minas Coração Eucarístico, o evento pode ser definido como uma celebração da superação por meio do esporte. Com o tema "Vitória pelo Esporte", a Jornada reuniu, durante toda a manhã e início da tarde, diversos atletas de diferentes modalidades como natação, futebol, basquete, tênis de quadra e mesa, judô, atletismo, patinação, entre outros.

O ator Marcos Frota, que já interpretou alguns personagens portadores de necessidades especiais, ressaltou a importância de a pessoa com deficiência cobrar mais respeito por parte da sociedade. “Todos nós devemos entender que já passou da hora de conviver bem com as diferenças. E os portadores de deficiência também precisam sair às ruas, ocupar espaço e exigir que seus direitos sejam respeitados”, destacou.

Durante todo o espetáculo, houve mais de 20 atrações que, de alguma forma, mostravam ao público a importância de se promover a inclusão. Um dos números que mais empolgou a platéia foi a apresentação dos artistas do Circo da Esperança, de Ipatinga. A atração trazia cadeirantes e pessoas sem deficiência dançando juntos, provando, por meio de uma sucessão de movimentos sincronizados, que as diferenças podem e devem conviver em perfeita harmonia.

Outro número que arrancou aplausos foi o do Grupo da Família Down. Sete jovens portadoras da Síndrome de Down rodopiavam com desenvoltura no picadeiro durante a apresentação de dança flamenca. O sucesso se repetiu com a dança do ventre.

Maestro

Uma das últimas atrações do evento e também uma das mais esperadas foi a participação do maestro João Carlos Martins e a orquestra Bachianas de São Paulo. As músicas interpretadas serviram como fundo musical para vários números, tais como balé, evoluções no trapézio e acrobacias. Um dos momentos altos foi a apresentação do Coral de Surdos e Mudos, que, por meio de gestos, deu forma à música tocada pela orquestra.

O maestro viu em sua participação na 2ª Jornada uma "oportunidade de democratização da música clássica, já que ela tem que chegar a todos, e não ficar restrita à classe A”. Ele disse, ainda, que a música é, comprovadamente, um dos segmentos mais importantes para a inclusão social e para ajudar a melhorar a auto-estima de uma pessoa com deficiência física. E o maestro sabe bem das adversidades enfrentadas por deficientes.

João Carlos Martins é considerado pela imprensa internacional como um dos maiores intérpretes da obra de Bach para teclado do século XX. Após uma estréia que chamou a atenção de toda mídia no Carnegie Hall de Nova York aos 20 anos, João Carlos Martins teve uma carreira meteórica que o levou a todos os continentes.

Aos 26 anos, sofreu o primeiro de uma série de acidentes que o obrigou a interromper, por duas vezes, a sua carreira. Mas, graças à sua determinação, teve a capacidade de retornar aos palcos com a mesma paixão que sempre caracterizou a sua relação com o público.

João Carlos Martins tocou com as maiores orquestras americanas e européias, como Boston Symphony, Los Angeles Philharmonic, Royal Philharmonic, Cleaveland Symphony, Pittsburgh Symphony entre outras. O New York Times, em setembro de 1982, se referia a João Carlos como “um dos maiores pianistas da atualidade” e a New York Magazine considerava-o como “o maior intérprete de Bach depois de Glenn Gould”. Sua coleção inclui 33 CDs e já foi alvo de dois documentários: Martin’s Passion, de produção franco-alemã, e Rêverie, de produção belga. Seu livro “A Saga das Mãos”, lançado em 2007, é um best-seller no campo da música clássica.

Reinventou-se como maestro após perder as duas mãos para o piano há três anos, já tendo atuado em São Paulo, Nova York, Paris, Londres e Bruxelas com enorme sucesso.

Derico

A Jornada ainda revelaria uma surpresa. No meio da tarde, tranqüilo, ele chegou e foi se preparar para o momento mais esperado: o desfecho comandado pelo maestro João Carlos Martins. Era o músico Derico Sciotti, saxofonista e flautista do sexteto do programa apresentado por Jô Soares.

Com seu bom humor característico, ele contou como surgiu a idéia de sua participação no show. “Foi uma dose de cara-de-pau da minha parte. O maestro esteve no programa há duas semanas para gravar uma entrevista e estávamos conversando sobre o projeto. Em um determinado momento, eu perguntei a ele como é que eu faria pra tocar com eles, pois queria me reaproximar da música de concerto. Ele gostou da idéia e me disse da oportunidade de tocar aqui na Jornada. Aceitei na hora e depois ele refez o convite no ar. Sem dúvida é uma honra”, enalteceu.

O repertório entusiasmou o músico, uma vez que iria tocar desde clássicos como Bach até pérolas da Música Popular Brasileira, como “Eu sei que vou te amar”, sambas de Adoniram Barbosa e a mineiríssima “Peixe Vivo”. Lembrando o poder da música em transformar e incluir as pessoas, Derico também abordou a importância de eventos como a Jornada. “As artes de forma geral, como a música, a pintura, a dança, além do esporte são instrumentos fortes para resgatar as pessoas. Eu, particularmente, tenho projetos de aulas para deficientes visuais e crianças com câncer. É sempre um prazer você participar de projetos como este e fazer algo. Ainda mais tendo a possibilidade de entreter o público”, encerrou.

Tubarão Paraolímpico participa da 2ª Jornada

“Tubarão Paraolímpico”. Assim ficou conhecido o nadador Clodoaldo Silva, 27, na Paraolimpíada de Athenas, em 2004. Conquistando seis medalhas de ouro e uma de prata nas oito provas em que disputou, o nadador entrou para a história na paraolimpíada como o maior medalhista brasileiro na modalidade, batendo quatro recordes mundiais, cinco paraolímpicos e 11 parapan-americanos. Por esses motivos, Clodoaldo foi o atleta nacional convidado a proferir palestra na 2ª Jornada da Inclusão da Pessoa com Deficiência, realizada pela SES, no Centro Esportivo da Puc Minas Coração Eucarístico.

Durante a palestra, Clodoaldo destacou sua trajetória, obstáculos, dificuldades e principalmente a importância do esporte na inserção destes cidadãos na sociedade. Para ele, títulos, vitória e superação fizeram com que os limites da deficiência física fossem extrapolados, na busca por uma vida melhor e sem preconceitos. “Temos deficiência, mas todos nós podemos levar uma vida tranqüila e normal”, falou.

Sua trajetória começou quando, em 1996, Clodoaldo iniciou na natação um processo de reabilitação, depois de quatro cirurgias para descruzar as pernas, deficiência ocorrida devido à paralisia cerebral por falta de oxigênio durante o parto. Dois anos depois, começou a se destacar nacionalmente, onde conquistou três medalhas de ouro no campeonato brasileiro, nascendo assim, o maior ídolo brasileiro das piscinas em jogos nacionais e mundiais.

“O esporte traz a socialização, qualidade de vida, viagens e reconhecimento. Mesmo assim, para que se alcance os objetivos é preciso trabalhar em equipe, ter comprometimento, concentração, liderança e atitude de atleta, pois temos que pensar positivo o tempo todo, “eu posso”, “eu sou capaz”, ressaltou o nadador.

Dificuldade

Nem só de superação e conquistas vivem os atletas portadores de deficiência. O preconceito e a discriminação tomam conta de um país que tenta reduzir as desigualdades. Foi assim com Clodoaldo, quando ainda criança sofria na escola devido ao problema. Ele conta que como não podia fazer todas as atividades, os colegas o discriminavam, excluindo o futuro “Tubarão paraolímpico” dos grupos. “Só a partir do momento que viram a minha capacidade de realizar as atividades, que me integrei ao grupo. Provei na infância e na adolescência que era capaz de evoluir”, explicou o nadador, que enfatizou ainda o apoio da família e o amor pela sobrinha como principal motivo para superar obstáculos.

Mais conquistas

Além dos recordes e medalhas nas Paraolimpíadas, Clodoaldo participou recentemente dos jogos Parapan-americanos, no Rio de Janeiro. Como era de se esperar, conquistou nada menos que sete medalhas de ouro e uma de prata fazendo porte da maior delegação dos jogos, com 60 competidores.

Na natação, atletas com deficiência físico-motora e visual competem nos quatro estilos - livre, peito, costas e borboleta – além das provas de estilos individual e revezamento, não sendo permitido o uso de próteses, órteses ou qualquer outro aparato. Os nadadores com deficiência visual total recebem um aviso, por meio de um bastão com uma ponta de espuma, quando estão se aproximando das bordas (nas viradas e nas chegadas).

O atleta se diz sensibilizado, pois a Jornada prova que todos têm capacidade, sendo o esporte um grande fomentador. “O encontro sensibiliza e conscientiza a sociedade e o brasileiro em especial. É um dia de lazer para todos estarem juntos, se incluindo na sociedade, além de proporcionar a descoberta de aptidões”, finalizou.