Carnaval 2004. Minas na passarela
Carnaval 2004. Minas na passarela
O Carnaval deste ano vai ter um sentido especial para Minas Gerais. Na madrugada de segunda-feira (23), os anjos barrocos, os trens, o adro da igreja, o ouro – símbolos do Estado – vão invadir a Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, durante o desfile da Estação Primeira de Mangueira, sexta escola a entrar na avenida, entre 2h25 e 3h40.
Com o tema "Mangueira redescobre a Estrada Real e deste Eldorado faz seu Carnaval", a escola vai colocar na avenida fantasias, carros alegóricos e coreografias contando um pouco da história de Minas. Das 4.500 pessoas que irão desfilar na verde-rosa, pelo menos 400 são mineiras.
A Mangueira promete uma saborosa prova do que o roteiro oferece, desfilando na Sapucaí as delícias da culinária, as belezas naturais, a arte de Aleijadinho e, claro, muito ouro. Não ficarão de fora figuras que marcaram a história do país, como Chico Rei e Xica da Silva, interpretados pelos cantores Milton Nascimento e Eliana Pittman.
O tema
A Estrada Real liga 177 localidades de Minas, Rio de Janeiro e São Paulo. Desse total, 162 estão situadas em Minas Gerais. A história da Estrada Real é secular, mas a idéia de transformá-la em produto turístico data de 1997, com a fundação do Instituto Estrada Real (IER), em Belo Horizonte. O diretor do IER, Eberhard Aichinger, diz que a idéia é revitalizar todo o percurso, criando vários produtos turísticos.
Para isso, o instituto lançou um catálogo com 79 roteiros de viagem pelos arredores mineiros da Estrada Real. Em meados de 2003, foram instalados os primeiros marcos da estrada: um em Paraty (RJ) e outro em Santa Cruz de Minas. O trabalho de demarcação do caminho começou a ser feito pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER) de Minas.
Os caminhantes consideram a Estrada Real como a versão brasileira do Caminho de Santiago de Compostela. A via histórica já conta inclusive com um guia para quem pretende percorrer o trecho Rio-Juiz de Fora a pé: o “Guia Estrada Real para caminhantes”, do administrador de empresas Raphael Olivé. A inspiração veio do caminho espanhol, percorrido em 1994. De volta ao Brasil, o mineiro Olivé, de 43 anos, passou um ano fazendo pesquisas sobre a Estrada Real. Além de explicações detalhadas sobre o percurso, ele dá dicas para os viajantes.
Os programas são operados por agências de turismo locais e incluem também a hospedagem, caso o roteiro tenha mais de um dia de duração. A nova edição do Guia de Roteiros da Estrada Real sai em março, já incluindo passeios nos estados de Rio e São Paulo.
Estrada Real ganha fôlego e novos parceiros
Integrar os circuitos turísticos mineiros à Estrada Real, captar investidores nacionais e internacionais e gerenciar a qualidade dos equipamentos e serviços turísticos oferecidos pelos 162 municípios situados na área de influência do programa. Esses são alguns dos próximos passos para a consolidação da Estrada Real como um dos principais roteiros turísticos do país.
O projeto, um dos 30 projetos estruturadores do governo de Minas Gerais, tem o objetivo de promover e desenvolver os 162 municípios mineiros da área de influência da Estrada Real, através da exploração sustentável da atividade turística. A meta nos próximos quatro anos é criar 178 mil empregos e atrair 2,5 milhões de turistas por ano.
De acordo com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, o turismo é uma das prioridades de seu governo. Segundo ele, a Estrada Real é “a obra estruturante mais importante de Minas Gerais nos últimos 30 anos”. Ainda conforme o governador, o projeto representa a solução para o desaquecimento da economia nos municípios mineiros situados ao longo do roteiro turístico.
O Ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, destaca a importância da Estrada Real não só para Minas Gerais, mas para todo o país. “É o melhor projeto turístico do Brasil”, frisou. De acordo com Mares Guia, a Estrada Real será responsável por cerca de 14% do total de empregos que devem ser gerados pelo setor de turismo, no país, até 2007, conforme as metas estabelecidas pelo Plano Nacional de Turismo.
Ações
Algumas ações que visam ao desenvolvimento da Estrada Real já estão em andamento. Dentre elas, a negociação com uma rede de postos de combustíveis para a inauguração de novos pórticos da Estrada Real e capacitação de funcionários para o fornecimento de informações sobre o roteiro turístico.
Também foi firmada uma parceria com a Associação dos Produtores de Cachaça de Qualidade (Ampaq) para inventariar as fazendas localizadas ao longo da Estrada Real, verificando a possibilidade de acomodação de turistas nesses locais, além do credenciamento das cachaças produzidas com o selo Estrada Real.
Outra ação importante e que deve contribuir para a divulgação do roteiro no cenário nacional e internacional, segundo Fagundes, é o apoio à produção de um longa-metragem sobre a Estrada Real, que deverá ser lançado durante o Carnaval do próximo ano.
Parcerias
Durante o seminário sobre a Estrada Real, realizado em 11 de fevereiro de 2004, em Belo Horizonte, foram assinados documentos que serão de vital importância para o sucesso do projeto Estrada Real. Dentre eles, o termo de cooperação entre o Governo de Minas, o Ministério do Turismo, a Secretaria de Estado de Turismo (Setur), a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), visando o desenvolvimento da Estrada Real.
A operadora de telefonia celular Oi firmou convênio com o Instituto Estrada Real, parceiro do Governo de Minas na coordenação do projeto, para a disseminação da tecnologia GSM na Estrada Real. Outra empresa que se tornou parceira do projeto é a Refrigerantes Minas Gerais, que será responsável pela colocação de marcos ao longo da Estrada Real. E a Redecard/Mastercard vai contribuir para a melhoria da sinalização turística nos municípios situados na área de influência do roteiro.
História da Estrada Real
História, cultura, arte e natureza são as riquezas que a exploração das "minas gerais" deixou para trás. Foram muitos anos de idas e vindas, das minas ao litoral, desde o século XVII, quando se construiu o que, hoje, chamamos de Estrada Real. E quando falamos da Estrada Real, não falamos apenas do caminho por onde passaram o ouro, os diamantes, os homens e a história, mas de tudo aquilo que foi construído em seu entorno.
São vias de acesso, trilhas calçadas pelos escravos, os descaminhos do contrabando, os pontos de parada, as cidades e vilas históricas. Todo um patrimônio que se forjou durante um longo tempo. Tempo que começou a ser contado com a primeira via, ligando a antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto, ao porto de Paraty. E que continuou deixando suas marcas em uma nova rota que viria a ligar o Rio de Janeiro à antiga capital das "minas gerais", já no século XVIII. Daí os registros históricos dos dois caminhos, o velho e o novo.
Com a descoberta das pedras preciosas na região do Serro, a estrada foi estendida até o então Arraial do Tejuco, hoje Diamantina, um patrimônio histórico da humanidade. O caminho velho nasceu das andanças dos bandeirantes à procura de riquezas. O caminho novo da necessidade de uma via de escoamento mais rápida, segura e eficiente das minas para o porto e dali para Portugal. Estava assim formada a Estrada Real, mais de 1400 km de patrimônio histórico-cultural e belezas naturais.
Com a descoberta das pedras preciosas na região do Serro, a estrada foi estendida até o então Arraial do Tejuco, hoje Diamantina, um patrimônio histórico da humanidade. O caminho velho nasceu das andanças dos bandeirantes à procura de riquezas. O caminho novo da necessidade de uma via de escoamento mais rápida, segura e eficiente das minas para o porto e dali para Portugal. Estava assim formada a Estrada Real, mais de 1400 km de patrimônio histórico-cultural e belezas naturais.
Sinopse do desfile da Mangueira
A Estação Primeira da Mangueira desenvolveu a seguinte sinopse sobre o desfile:
“O brilho do ouro um dia acabou. O tempo se foi, o caminho ficou. Pra testemunhar, sem medo de errar, que a fibra mineira é também imortal, a vida renasce, do sonho acordada, na paisagem encantada da Estrada Real. A Mangueira percorre essa rota da história e traz pra avenida seu canto de glória.
Em cada curva do caminho, uma lembrança do passado. Mineiramente, de mansinho, eu vou dando meu recado. Sem alarde, sapatinho, que o barroco é rebuscado – e o patrimônio está tombado. Bendito tombamento, que guardou o tesouro pra quem queira visitar o ciclo do ouro. A ficha caiu: quem não conhece Minas desconhece o Brasil.
Estrada do sonho, da ambição e do poder, até hoje é real, em tudo igual ao que o Brasil queria ser.
Jóia rara da coroa, vai beijando a terra boa onde foi a pioneira. Sobe lenta, desce ligeira, serpenteia as montanhas e invade as entranhas da alma brasileira.
Se engana quem pensa que o fausto acabou e a vida presente virou conformismo. A estrada que um dia o ouro escoou é a mesma que hoje está cheia de gente trazendo riqueza fazendo turismo. É o ouro que volta e visita o passado naquele rincão. É como se o tempo, por ter-se ausentado, pedisse perdão.
Não falta personagem nessa longa viagem. Índio, escravo e garimpeiro, mais poeta, inconfidente e tropeiro. Gente que não acaba mais, escrevendo a história das minas gerais. Cada qual com sua crença, seu desejo ou seu pecado - num vai e vem de doido, pela estrada do eldorado.
E quanto lugar bonito brotou do chão nas Alterosas com os grandes veios de ouro e de pedras preciosas! Vila Rica, poderosa, era o centro da agitação. Hoje chama Ouro Preto e mantém a tradição. Que dizer de outras tantas, como a velha Sabará, ou da bela Diamantina, do famoso JK! São tantas, e tão bonitas, que eu não quero ir embora. Só se for pra ir morar em São João ou Juiz de Fora.
São Lourenço, Cambuquira, Caxambu, água pura que os males cura, essa nunca vai se acabar. Deste solo sai riqueza que não para de jorrar.
Que trem bão essa viagem, essa estrada não é pouca! Se não pega pela vista, me amarra pela boca. Haja fome, meu irmão, que o cardápio é de primeira - e nem falo do feijão que vem com couve mineira. Nem do queijo e da cocada, muito menos ambrosia – que aí é jogo baixo, se provar é covardia. Duvido que alguém resista é da prima da melaça que sai do mesmo alambique com o nome de cachaça. Marvada pinga tem na estrada até o fim do roteiro quando acaba em Parati, que é do Rio de Janeiro.
Feliz é Mangueira, que faz da beleza da gente mineira o seu carnaval. Feliz é meu samba, que sai pela vida na alegria incontida da Estrada Real.
Quem nunca foi, quem nunca viu... não sabe tudo, das belezas do Brasil
O que corta essa estrada é mais que a vista pode alcançar. É a alma de um país inteiro pulsando em solo mineiro e que parece não acabar. Do Brasil tem tudo um pouco, nem que seja um bocadinho. Está na torre de cada igreja, está na obra do Aleijadinho.
Por isso Mangueira se encanta com a beleza das gerais. Sambando seus males espanta e evoca seus ancestrais. Mas olha em frente, pro presente, e vê no rosto que a gente não quer só olhar pra trás.”
Samba-enredo
MANGUEIRA REDESCOBRE A ESTRADA REAL...
e deste eldorado faz seu carnaval
Autores: Cadu, Gabriel, Almyr e Guilherme
Intérprete: Jamelão
Mangueira,
Um brilho seduziu o meu olhar
E me fez encontrar
A estrada do sonho
Real desejo de poder e ambição
As trilhas bordadas em ouro
Levaram um tesouro à caminho do mar
Teu chão é um retrato da história
E o tempo não pode apagar
Hoje, eu descubro a beleza
Que faz a riqueza voltar
Por belos recantos passei
Das suas águas, provei (bis)
De mansinho eu peço passagem
A Mangueira vai seguir viagem
Tempero bom!
Pode avisar que a comida está na mesa
Se a pinga não "pegar"
Eu chego ao Rio com certeza
Na arte, eu vi obras que o gênio esculpiu
Igrejas, o barroco emoldura o Brasil
Ó Minas!
És um berço de cultura, és raiz
Que brilha forte em verde e rosa
Herança e patrimônio de um país
Eu vou embarcar
Na Estação Primeira (bis)
Tesouro do samba, minha paixão
"Ê trem bão!"