Logo Agência Minas
Logo da Agência Minas

Notícia

Detenta reecontra a mãe em Belo Horizonte após 22 anos

Sexta-feira | 18/09/2009 | 19:30·Atualizado em 26/06/2013 | 10:33
Compartilhar no Facebook
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no X
Compartilhar no WhatsApp

BELO HORIZONTE (18/09/09) - Foi por meio de anúncio em um jornal mineiro de grande circulação que a detenta Jeane de Jesus Xavier, 32, que cumpre pena do Presídio de São Joaquim de Bicas II, reencontrou sua mãe, Neuzi Rosa de Jesus, 48. Sua irmã Geovana, que mora em Curvelo, ao saber da publicação por uma amiga, tratou de avisá-la por meio de uma carta. Jeane contou a novidade a uma agente penitenciária da unidade, e esta fez o caso chegar à direção. Daí em diante, assistentes sociais fizeram os contatos, confirmaram a veracidade dos fatos e marcaram o encontro.

A ideia de publicar o anúncio partiu de Franciele Ravene de Souza, 21, filha de Neuzi e meia-irmã de Jeane. Apesar de ter apenas um ano quando se separou da irmã e de mais quatro irmãos, o desejo de reencontrá-los sempre a acompanhou. “Não me lembro de nada, porque eu tinha um aninho quando eles foram embora de São Paulo, mas sei que Jeane cuidava de mim e sou grata por isso”, conta Franciele, com carinho. “Meus irmãos Jeane, Geovana, Joenilton, Gilmar e Geovácio foram entregues ao pai deles, Adão, e foram todos para Janaúba, no Norte de Minas. Isso porque minha mãe tinha casado de novo, e o então marido dela, meu pai Francisco, não aceitava os filhos do outro casamento. Foi aí que a gente se separou”, completa.

Os cinco irmãos ficaram sob a guarda do pai, que também já estava no segundo casamento. E mais uma vez as coisas tomaram outro rumo. Adão Mendes Xavier faleceu dois anos depois, deixando Jeane com 12 anos e outros quatro filhos mais jovens aos cuidados da nova mulher. Esta, por sua vez, acolheu as crianças, mas não demorou para que se desentendessem. Jeane foi tentar a vida em Belo Horizonte como empregada doméstica e, assim que pôde, buscou os quatro irmãos para morarem com ela na capital. Os irmãos continuaram juntos, até que, já adultos, seguiram seus destinos, sem nunca perderem o contato. No entanto, mais uma fatalidade espreitava Jeane: Geovácio, com apenas 18 anos, faleceu em decorrência do envolvimento com drogas.

Passado, presente e futuro

“Sofri demais. Quando eu andava na rua, ficava olhando no rosto de cada mulher esperando encontrar a minha mãe. Quem sabe alguma delas poderia ser a minha? Mas nada acontecia, não tínhamos contato, e eu criei uma realidade na minha cabeça: que eu era órfã e que meus pais tinham morrido num acidente de carro. Foi o jeito que encontrei para não ficar abrindo, toda hora, as mesmas feridas”, relata Jeane, com o olhar distante.

Ela confessa: “Tinha um rancor muito grande dela por ter abandonado a gente. Só que, quando tive meus três filhos, percebi que não existe nada que se compare à dor de uma mãe. Aí pensei: ela errou, mas se arrependeu, e posso imaginar o tamanho do sofrimento dela. Deixei o passado pra trás, as lembranças ruins, perdoei e agora quero uma nova vida, em família”.

Ao saber que a mãe estava à sua procura, mais precisamente no dia 15 de agosto deste ano, a ansiedade passou a tomar conta da rotina de Jeane, até que o grande dia chegou. Um abraço demorado e um choro sofrido traduziu a emoção daquele momento. Mais de duas décadas de sofrimento se fundiram no encontro, que promete um futuro diferente. “Agora estou bem, com o espírito calmo, sossegado. Não conseguia ser feliz sem os meus filhos, isso me atormentava. Errei no passado, mas hoje não erro mais. Quero todos perto de mim, de novo, pra sempre. Agora vou morar em Curvelo, na casa da Jeane, e cuidar dos três filhos dela, meus netos de oito, sete e um ano e seis meses”, planeja.

Jeane entregou para a mãe um par de almofadas feitas de retalhos, uma toalha bordada para a irmã Franciele e uma bonequinha de fuxicos para a sobrinha Dorothy. Todos os artesanatos foram feitos por ela, em oficinas oferecidas dentro do Presídio São Joaquim de Bicas II. “Pra vocês lembrarem que aqui eu trabalho, tenho assistência e sou respeitada. Não se preocupem, estou muito bem aqui”, disse. “E agradeço aos diretores – Ildeu Soares, Ana Ferreira e Geovani Cézar, técnicos, agentes e demais profissionais da unidade por terem me dado essa chance maravilhosa. O que estou vivendo hoje é melhor do que um alvará de soltura!”, comparou.

O diretor-geral da unidade, Ildeu Soares, reforçou a importância do trabalho da equipe do presídio, que tem como um de seus principais pilares a humanização e o respeito ao preso. “Acredito que não podemos fazer tudo, mas que devemos fazer o que nos é possível, como é o caso da Jeane. Levo pra casa o coração mais aliviado e tranquilo, e a certeza de que pudemos, através desse gesto, fazer muitas pessoas felizes”.