Detento dá aulas de música para presos na cidade de Leopoldina
A entrada de Sérgio Henrique Filaretti promete dar um impulso na educação musical no presídio, que começou em outubro 2015
As aulas de música no Presídio de Leopoldina, região da Zona da Mata, ganharam um reforço inesperado. Responsável pelo projeto e também professora de flauta, a assistente social Patrícia Jobim Santos descobriu entre os presos um músico também capaz de ensinar. Foi assim que Sérgio Henrique Filaretti começou a dar aulas de violão e teclado, dando vida novamente à carreira artística iniciada na infância. Ele foi criado no circo e aprendeu logo cedo a tocar vários instrumentos que incorporou nas apresentações de seu personagem, o Palhaço Proveta.
A entrada de Filaretti promete dar um impulso na educação musical no presídio, que começou em outubro 2015, com a chegada de um teclado adquirido pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). Em seguida, veio a doação de algumas flautas doces, por uma ONG local, a Osap’s, e três violões, também doados, por Elizabeth Silva, professora da escola do presídio, e, surpreendentemente, pelos presos alunos Carlos Henrique da Silva e Andreson Trevisan.
A assistente social Patrícia aposta que, aos poucos, a turma de quatro estudantes de música do Presídio de Leopoldina vai crescer. Formada pelo Conservatório Estadual de Música Haidée França Americano, de Juiz de Fora, a servidora da Seds acalentava há algum tempo o sonho de dar aulas para os presos. “A música é vida, emoção sentimento, transformação e tudo isto faz uma falta enorme no ambiente carcerário”, explica.
O diretor-geral da unidade, Rodrigo Camargo de Melo, confirma o clima positivo trazido pela música na unidade prisional. “Mais de vinte presos já solicitaram vagas na turma de educação musical. Vamos procurar atender, observando os critérios de classificação e segurança da unidade”, diz.
O segundo professor de música do presídio demonstra ter recuperado o entusiasmo artístico dos tempos que excursionava por vários países, engajado em companhias como o Circo Garcia, o Circo Portugal, o Circo Moscou e o Circo Las Vegas. “Palhaço nunca fica triste, mesmo quando está preso. A música e o Proveta estão aqui para trazer alegria e esperança de uma vida melhor”, diz Filaretti.
Talentos
Os detentos Arnobi Rufino Pimenta e Andreson Trevisan da Silva, ambos com 33 anos, são alunos dedicados nas aulas de violão, instrumento escolhido por eles. Os dois têm em comum não apenas a idade, mas o desejo de levar a sério a música e poder tocar nos cultos de suas igrejas.
“A música me dá liberdade, sinto-me próximo dos meus filhos”, afirma Arnobi, pai de duas meninas de 14 e sete anos e dois meninos, de 13 e cinco. Já para Andreson, o gosto pela música é uma herança de família. O pai toca cavaquinho e o irmão violão. “A música tira os pensamentos ruins e pode nos trazer paz e tranquilidade”, acredita.
Predomina no repertório das aulas MPB e música religiosa. A turma tem ensaiado Trem das Onze, de Adoniran Barbosa; Cio da Terra, de Milton Nascimento e Chico Buarque e Saia do meu Caminho, de Belchior. Dentre as evangélicas preferidas está Raridade, de Anderson Freire, que os detentos fazem questão de cantar um trecho: “Você é um espelho/Que reflete a imagem do senhor/ Não chore se o mundo ainda não notou/Já é o bastante/Deus reconheceu o seu valor.”