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Notícia

Escola estadual dá exemplo de trabalho com a Língua Brasileira de Sinais

Muito mais que gestos, ação se torna um ato de inclusão social

Quarta-feira | 25/04/2012 | 10:34·Atualizado em 28/06/2013 | 12:15
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Apenas na rede estadual de ensino da educação Básica de Minas Gerais são aproximadamente 1500 alunos surdos atendidos por cerca de 600 escolas
Apenas na rede estadual de ensino da educação Básica de Minas Gerais são aproximadamente 1500 alunos surdos atendidos por cerca de 600 escolas / Crédito: Divulgação/SEE

Importante forma de comunicação e expressão entre pessoas surdas e ouvintes, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) atua como ferramenta de inclusão social em vários aspectos, entre eles na educação. Apenas na rede estadual de ensino da educação Básica de Minas Gerais são aproximadamente 1500 alunos surdos atendidos por cerca de 600 escolas. Nessas instituições de ensino, 1.446 intérpretes atuam nas escolas como mediadores da comunicação entre o surdo e os demais presentes nas salas de aula. Entre eles está a intérprete de Libras, Margarete Aparecida da Conceição de Paula, que trabalha na Escola Estadual Maurício Murgel, em Belo Horizonte.

Na rotina que desempenha há 12 anos, Margarete Aparecida da Conceição de Paula, procura traduzir para os alunos surdos os conteúdos ensinados pelas disciplinas do 2º ano do ensino médio. “O que fazemos em sala de aula é uma interpretação simultânea. Somos uma espécie de ponte do aluno com aluno e do aluno com professor”, lembra a intérprete. A escola atende cerca de 90 alunos surdos nos turnos da manhã e da noite.

Porém, além da mediação para o aprendizado do estudante, o interprete contribui para um trabalho de socialização do aluno. “O acompanhamento do intérprete está na tradução, passar do Português para a Língua de Sinais, e da Língua de Sinais para o Português, além de estimular a comunicação dos alunos surdos com os alunos ouvintes, também promovendo essa interação das línguas”, detalha o intérprete Wildmark Ferreira Martins, que também trabalha na escola da capital mineira.

A parceria entre o interprete e o professor na sala de aula é outro aspecto importante a ser adotado nas turmas compostas por alunos surdos e ouvintes. Sobre esse trabalho, a professora de Matemática Edivânia Souza Mendes Pereira conhece bem. “Tudo o que eu passo para os alunos, os intérpretes transferem para os alunos surdos corretamente. Quando os meninos têm alguma dúvida eles procuram o intérprete, os intérpretes me procuram e vice-versa. Também procuro dar a minha contribuição facilitando a aula. Quando vou simplificar uma fração no quadro eu utilizo cores diferentes de pincel para destacar os pontos que considero importantes na matéria”, exemplifica a professora do 2º ano do ensino médio.

Linguagem da amizade

Rafael Santos Cabral, de 16 anos, não tem nenhum problema auditivo, mas a possibilidade de conviver com colegas surdos no ambiente escolar despertou o interesse em aprender a Linguagem Brasileira de Sinais. “Eu comecei um curso de Libras no ano passado e, aqui na escola, o Dennis e outros colegas, também nos ensinam alguns sinais. É só agente pedir, porque eles têm boa vontade. Então, se eles tentam pedir ajuda para alguma matéria, a gente tenta se comunicar com eles através da Libras”, explica Rafael.

Dennis Diniz Bortolini, de 19 anos é colega de Rafael, na sala e nos intervalos das aulas. O estudante que nasceu surdo consegue fazer leitura labial e estabelecer outra forma de comunicação além da Linguagem Brasileira de Sinais. “Para mim não é tão difícil o dia a dia, porque a minha comunicação não é só em Libras. Eu tenho uma comunicação oral. As aulas de Educação Física, por exemplo, são super tranquilas. Nós nos interagimos e jogamos futebol juntos”, comentou Dennis.

Ações de inclusão na escola

Além do apoio dos intérpretes, como mediadores nas salas de aula, a Escola Estadual Maurício Murgel têm outros trabalhos, como o curso de Libras voltado aos alunos da escola. O curso é oferecido há cinco anos e atualmente atende há 120 estudantes surdos e ouvintes.  “As oficinas são feitas pelos alunos no horário em que eles não estão em aula. Temos horários para atender ao turno da manhã, tarde e noite. Agora estamos pensando na oportunidade de abrir para a comunidade”, adianta a vice-diretora da escola no turno da manhã, Márcia Damasceno.

Com aproximadamente uma hora e meia de duração, o curso é oferecido de segunda à sexta-feira. As atividades são ministradas pelo instrutor de Libras Fabrício Amaral de Resende. “O aluno precisa saber libras para a comunicação e a cultura dele. Temos muitas dinâmicas em nossas aulas. O importante é que o aluno ouvinte tenha contato com o surdo, porque assim ele aprende mais rápido”, explica o instrutor que é ex-aluno da escola.

Entre os participantes do curso está Guilherme Ângelo Dias da Silva, de 15 anos. “O curso me motivou a participar porque é uma coisa boa. Pretendo nos próximos anos aqui na escola estar em uma sala com alunos surdos e assim poder exercitar o que aprendo aqui”, comenta o estudante do 1º ano do ensino médio.

Outra ação começou a funcionar na escola esta semana. Denominado de sala de recursos, o espaço é multifuncional e possui materiais de apoio ao aprendizado e reforço do aluno, a partir de sua deficiência. Além dos 90 alunos surdos, a escola tem quatro estudantes cegos que poderão realizar atividades complementares de reforço no local, no contraturno das aulas regulares.

“O processo de inclusão não vai acabar. Todo dia você vai aprendendo um pouquinho mais, como melhorar esse atendimento, como disponibilizar meios para que os alunos consigam ter um resultado melhor”, afirma Márcia Damasceno.

Ações de inclusão do Estado

Para auxiliar as escolas no atendimento adequado aos alunos surdos, a Secretaria de Estado de Educação (SEE) possui três Centros de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez (CAS). Os centros têm por objetivo trabalhar propostas para a educação de surdos. Eles trabalham no aspecto da formação pedagógica dos alunos e dos profissionais. Ao todo, Minas Gerais possui três CAS: em Belo Horizonte, Montes Claros e Varginha.

Os CAS são constituídos por quatro núcleos: o de capacitação, o de tecnologia, de apoio didático e de convivência. Nesses núcleos atuam profissionais com diferentes formações, como professores formadores de intérpretes de libra, supervisores pedagógicos, professores de português e instrutores de libras, que normalmente são pessoas surdas para difundir a linguagem de sinais nas escolas.

“O carro chefe dos CAS é a formação continuada de professores em Libras e a formação de intérpretes. Todo profissional que queira atuar como intérprete deve participar de uma capacitação no centro. Durante o curso, eles vão passar por uma capacitação especifica na interpretação e verão aspectos como a metodologia da interpretação”, ressalta a diretora de Educação Especial, Ana Regina Carvalho. Mais de três mil educadores já foram capacitados pelos Centros de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez.

Os centros também trabalham com atendimento direto ao aluno surdo e a sua família, por meio da orientação aos familiares, sobre as Libras, sobre o que é ser um surdo e sobre o que é a educação para surdos. OS CAS são responsáveis por capacitar e formar profissionais de todas as escolas.