Estadual Central comemora 150 anos
Estadual Central comemora 150 anos
A Escola Estadual Governador Milton Campos, o Estadual Central, completa 150 anos nesta quarta-feira, dia 17. Várias comemorações estão previstas, a partir das 9 horas, com apresentações da Orquestra de Violões ao lado da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar.
A história do Estadual Central se confunde com a criação da educação pública em Minas. Alguns dos que passaram por seus bancos escreveram, e ainda escrevem, páginas importantes de nossa cultura. O cartunista Henfil, uma certa Elke Grunnup, hoje conhecida como Elke Maravilha, o ator José Mayer, entre os artistas, o sociólogo Betinho, Amílcar Martins, Eduardo Azeredo e Fernando Pimentel, entre os políticos, assim como o presidente Getúlio Vargas, cujo comprovante de matrícula para a 5.ª série, de 2 de setembro de 1896, consta nos registros, quando a escola ainda se localizava na rua do Rosário em Ouro Preto, sob o nome de Ginásio Mineiro.
O imaginário da escola como referência em Minas começa a ser formado na década de 60 do século passado, quando suas amplas instalações recebiam a elite da época. Sob as elevadas colunas do prédio principal, que abriga as salas de aula e a estrutura administrativa, muitos namoros se iniciaram, amizades se formaram e os primeiros beijos foram dados.
Diferentes versões
As versões sobre o ano de fundação são conflitantes. Há os que defendem o surgimento em 1744, ano em que foi instituída a instrução pública em Minas, com aulas de latim avulsas em Ouro Preto, de acordo com documentos do Arquivo Público. Há aqueles que preferem adotar 1839, quando as aulas de latim foram reunidas num único endereço da cidade, o Colégio Público, nome que seria alterado por sete vezes. Ou ainda 1890, por ocasião da abertura do Ginásio Mineiro, criado pelo então governador Bias Fortes. Mas a direção escolheu 1854 como marco fundador, em razão da inauguração do Liceu Mineiro, ainda em solo ouropretano. Mas toda essa discussão não revoga o fato de que a instituição é uma das mais antigas do Estado a ministrar o ensino médio.
Somente em 1898, um ano após a mudança da nova capital, que o Ginásio foi transferido da antiga Vila Rica para Belo Horizonte, onde foi instalado provisoriamente em um prédio da Praça Afonso Arinos. Posteriormente, foi para a rua da Bahia e, logo após, para o bairro da Serra. O destino seguinte foi um prédio na avenida Augusto de Lima, onde hoje está o centro de exposições Minas Centro, em frente ao Mercado Central. Rebatizado como Colégio Estadual de Minas Gerais em 1943, sofre nova mudança, para outro prédio na mesma avenida, onde posteriormente seria erguido o Fórum Milton Campos. A transferência para o endereço definitivo, na rua Fernandes Tourinho, ocorreria, finalmente, em 1956, onde antes funcionava o Regimento da Cavalaria da capital.
Originalidade arquitetônica
As dessemelhanças estilísticas com as dezenas de edifícios que circundam as duas unidades da instituição, que ocupam dois quarteirões inteiros no bairro de Lourdes, zona sul da capital, são evidentes: é a única edificação projetada por Oscar Niemeyer, no início da década de 50, a pedido de Juscelino Kubitschek, então governador do Estado. O conjunto arquitetônico do Colégio Estadual de Minas Gerais, antigo nome da escola, alude, de maneira inigualável, a objetos de uso comum na vida escolar: a caixa d’água lembra um giz, as salas de aula uma régua “T”, a cantina tem o formato de uma borracha e o auditório, de um mata borrão, instrumento que em outras épocas servia para secar o excesso de tinta no papel.
Até a década de 70 do século passado, o colégio possuía a estrutura de uma universidade, com reitores indicados pelo governador. O último deles, que encerrou a gestão em 1973, foi o atual subsecretário estadual de defesa anti-drogas Elias Murad. A escola era o núcleo das maiores escolas de Belo Horizonte, daí o denominação. Eram vinculadas à escola unidades nos bairros Santo Antônio, São Bento, Gameleira, Sagrada Família e Serra, além dos anexos II e III, ao lado do prédio principal, concebidos para o ensino fundamental. Na década de 70 as unidades se tornaram escolas independentes, com exceção do anexo II. O nome atual de “Escola Estadual Governador Milton Campos” é mais recente, de 1978.
Contar a história da escola significa também falar da trajetória daqueles que contribuíram para sua construção. Histórias como a de José Wenceslau de Carvalho, ex-professor de física, administrador público e voluntário na gestão do caixa-escolar, ou a de Victória Régia, professora de história e desde 1974 no Estadual. Pessoas cujas vidas se confundem com a da escola.
José Wenceslau é sempre o último a sair da escola, por volta das 23h, diariamente. Desde 1979 que ele atua, voluntariamente, como consultor financeiro do Estadual. Formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora e pós-graduada em História Portuguesa em universidades portuguesas, através de bolsas governamentais, Victória Régia afirma que, com o passar dos anos, o Estadual se tornou mais aberto a todos os segmentos sociais. “Aqui é a continuação de minha casa, uma extensão de minha família”, conclui.
PDPI favorece envolvimento escolar
Desde agosto do ano passado, toda a escola se empenha na construção do Plano de Desenvolvimento Pedagógico Institucional, PDPI, lançado pela Secretaria de Estado de Educação. Através do PDPI, a escola identifica os pontos vulneráveis, planeja ações e reúne regularmente todos os membros da comunidade escolar, como o colegiado, pais de alunos, professores e demais funcionários. As soluções também são apontadas coletivamente. O plano tem características próprias, indicadas de acordo com as particularidades de cada instituição .
No caso do Estadual Central serão implantados quatro projetos que abrigam vários sub-projetos, a serem desenvolvidos ao longo do ano: o de reestruturação curricular, que inclui o planejamento didático e a avaliação, o “Boa Convivência” que visa o protagonismo juvenil e o desenvolvimento afetivo sexual responsável; a criação de um centro integrado de arte, cultura e ciências, com seis salas, sendo duas de música; e a reestruturação da gestão escolar, que prevê a criação de uma Organização Não Governamental, ONG, para a administração do caixa escolar e também de uma assessoria de comunicação social dentro da escola, com o lançamento de jornal, rádio e site, totalmente formulados por alunos e professores. “Queremos repensar a escola, reafirmar o Estadual como instituição vinculada à pesquisa e meio para a continuidade de estudos,” resume o diretor Edson.
Em 1998 houve a reforma da piscina e a cobertura da quadra poliesportiva com recursos do Minas Tênis Clube, que recebeu em troca o empréstimo do centro esportivo para o treinamento de seus atletas. Outra parceria importante foi efetivada no ano passado, quando a escola recebeu apoio da Fundação Júnia Rabello para a formação da orquestra de violões.
Orquestra de Violões mobiliza toda a escola
No início do ano passado surgiu a idéia de oficializar a tradição da escola como celeiro de grandes músicos: Juarez Moreira, Murilo Antunes e Marcus Viana são alguns dos egressos do Estadual, assim como o compositor Fernando Brant. A idéia de reunir as dezenas de estudantes que diariamente tocavam seus violões na hora do intervalo foi uma iniciativa da vice-diretora Berenice Horta. “O violão é o instrumento que mais visita a escola, por que não vê-lo como possibilidade de trabalho?” pergunta Berenice. Ela é irmã de Toninho Horta, guitarrista e compositor conhecido mundialmente. Berê, como é conhecida, gostaria que a educação musical fosse estendida para toda rede pública de ensino. O irmão, ex-aluno da unidade Sagrada Família, aderiu ao projeto e hoje coordena a orquestra.
Com o apoio da iniciativa privada, a algazarra do período de descanso foi convertida em novas possibilidades de crescimento artístico. O entusiasmo dos alunos pode ser conferido em números: foram 210 inscritos para 32 vagas. Os selecionados passaram por uma banca avaliadora que incluiu nomes como os irmãos Wilson e Beto Lopes, Cristiano Viana e Eduardo Macedo, dentre outros músicos mineiros. As aulas acontecem duas vezes por semana no turno da tarde.
Renan Ardisson de Freitas, ex-aluno e integrante da orquestra, conta que agora pode conhecer o que há de melhor na música popular brasileira. “Muita gente só sabia o que era rock, heavy metal e outras tendências da música estrangeira. Com as aulas, tiveram acesso à MPB e à música clássica”, afirma Renan.
O ritmo de trabalho, iniciado em agosto de 2003 tem sido bem intenso, relata Rogério Leonel, um dos professores, ao lado de Geraldinho Moreira e Celsinho Alvarenga. “Os alunos já começaram tocando, nossa agenda é bem apertada”, diz Rogério, que também é arranjador. Segundo ele, a receptividade tem sido positiva. A primeira apresentação foi em novembro passado, quando a orquestra se apresentou no coreto da Praça da Liberdade, em frente à sede do governo estadual.
Raio X:
Ano de fundação: 1854.
Área total: 20 mil m2, em dois quarteirões no bairro de Lourdes.
N.º de alunos: 4600 em três turnos.
N.º de salas:80.
N.º de professores: 234.
Nível de ensino: médio.
Sistema de ensino: seriado.
Endereço da unidade I: Rua Fernandes Tourinho, 1020; unidade II: Rua Rio de Janeiro, 2458.
Telefax: 31 3223 3455
Diretor: Edson Miguel Barcellos.