Governo de Minas investe em pesquisa para melhorar a vida de pessoas com deficiência
Investimento de R$ 1,2 milhão visa incentivar a pesquisa na área de tecnologia assistiva e auxiliar o desenvolvimento das pessoas com deficiência

O Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sectes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), e o Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) criaram, em 2012, o Centro de Desenvolvimento e Transferência de Tecnologia Assistiva (CDTTA). O ambiente foi especialmente construído para incentivar a pesquisa na área de tecnologia assistiva e auxiliar o desenvolvimento das pessoas com deficiência. O investimento do governo mineiro na implantação do CDTTA é de R$ 1,2 milhão. O CDTTA está localizado em Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, e faz parte do programa Rede Mineira de Tecnologia Assistiva, do Governo de Minas, voltado para o atendimento dos deficientes no Estado.
O centro tem por objetivo potencializar as ações de pesquisa para o desenvolvimento de produtos que facilitem a vida das pessoas com deficiência, tornando as inovações acessíveis a todas as camadas da população pela transferência tecnológica para o setor industrial. O resultado é o surgimento de novas empresas voltadas para esse segmento. Segundo a pesquisadora e fisioterapeuta, Cláudia Cristina Garcez, a democratização do acesso a novas formas de fisioterapia é uma das metas. “Nosso grande desafio é transferir essa tecnologia para as indústrias, de forma que todos os fisioterapeutas tenham acesso e possam aplicá-la no resto do país. O diferencial do nosso trabalho é que quem faz todo o esforço é o paciente, e a prova maior de sua aplicabilidade são as melhoras descritas pelos pacientes que passaram por aqui”, afirmou.
Segundo o último censo realizado em 2010 pelo IBGE, 23,9% da população, ou 45.623.910 brasileiros, afirmaram ter algum tipo de deficiência. Ampliar a capacidade dessas pessoas, permitindo sua independência e inclusão na sociedade e no ambiente de trabalho, é um dever social do Estado. A fisioterapeuta destaca a participação dos voluntários no desenvolvimento das pesquisas. “Busco 100% do potencial de cada paciente voluntário. Depende do esforço e da vontade de cada um o nível de desenvolvimento que ele vai ter. Acredito que somente o próprio paciente pode descobrir seus limites, ninguém pode falar para o outro o que ele pode ou não fazer. O grande fator motivador do meu trabalho é ver o brilho no olho do paciente quando ele supera seus limites”, assegura Cláudia.
Mudança
Nos últimos anos cresceu o número de pessoas com deficiência decorrente de acidentes de trânsito, domésticos e violência. Segundo dados fornecidos pelo Instituto Brasileiro dos Direitos da Pessoa com Deficiência (IBDD), coletados a partir do pagamento do DPVAT, seguro obrigatório distribuído às vitimas de acidente de trânsito, em dez anos, entre 2001 e 2011, o número de vítimas com invalidez permanente aumentou mais de 20 vezes, passando de 11 mil para 239 mil pessoas.
Um acidente de carro em outubro de 2007 mudou bruscamente a vida do engenheiro, ex-aluno do Inatel, Bruno Medeiros, de 30 anos. Empregado em uma multinacional, ele aproveitou um fim de semana de folga para fazer uma pequena viagem e dormiu ao volante. Diagnosticado com lesão medular que acarretou em tetraplegia, ouviu dos médicos que com muito esforço conseguiria ficar sentado. “Eu sei o que é ouvir não, o que é sentir que as pessoas não acreditam em você. O CDTTAme deu um caminho, uma oportunidade, uma forma de trabalho diferenciada desenvolvida por pessoas que acreditam no nosso potencial. Ao chegar ao Inatel, me deram um prazo de três meses para começar a ver melhoras e em quatro semanas de atividades já estava de pé. Foi muito emocionante, todos choraram na sala. Aprendi a me cuidar e a descobrir o que posso fazer, como devo estimular a musculatura”, relatou o engenheiro.
Por ter sido um dos voluntários pioneiros no CDTTA, Bruno se tornou uma referência para outros pacientes voluntários. “Hoje, sei que sou um ponto de apoio para muitas pessoas que passam pelo mesmo tipo de situação. Depois do acidente, aprendi a esperar, a saber que as coisas dependem de mim, mas que não posso estipular um prazo para não me frustrar. Atualmente, movimento com o andador. Já tive alta, mas continuo com a musculação na ativa. Meu próximo desafio é andar sem utilizar as mãos”, disse.
Só em Minas Gerais, segundo o censo de 2010, 22,62% da população tem deficiência. Muitos são jovens como o administrador Ricardo Pinheiro Filho, de 23 anos, que sofreu uma lesão medular ao mergulhar na piscina de seu sitio, no município de Monte Carmelo, no Alto Paranaíba. “Tinha 18 anos quando sofri o acidente. O apoio das pessoas que me amam foi fundamental para eu não revoltar. Vi que tudo foi feito para que eu melhorasse”.
Ricardo ressaltou que o processo de recuperação envolveu muitas mudanças em sua vida. “A técnica desenvolvida no CDTTA possibilitou minha evolução. A primeira vez que fiquei em pé novamente foi muita informação ao mesmo tempo. Tentei dar uns passos, senti o peso das minhas pernas me sustentando. Deu muita esperança porque eu senti os músculos da minha perna trabalhando, a coluna firme. Tenho a certeza de que esta é apenas mais uma das minhas vitórias,” afirmou Ricardo.
O apoio de amigos, familiares e profissionais de saúde tem sido um dos fatores preponderantes para o sucesso das pesquisas do CDTTA. “Sempre acreditei na recuperação do Ricardo. A vinda para o Inatel foi fundamental para o desenvolvimento dele, que ganhou muito mais mobilidade. Digo que me apaixonei duas vezes: antes e depois do acidente. Ele demonstrou ter força e garra pra encarar qualquer adversidade e isso me cativou ainda mais,” disse Joseane Freitas, de 25 anos, namorada do Ricardo.
Elevador diferenciado
Um dos equipamentos desenvolvidos e já em fase de teste e comercialização é o elevador ortostático dinâmico, que propõe um novo tratamento para pessoas com lesão na medula (tetraplégicas e paraplégicas). Por meio da reeducação de marcha e musculação para membros superiores e inferiores, os pacientes adquirem independência para atividades rotineiras, como tomar banho e fazer a transição da cadeira de rodas para outros locais.
O coordenador do CDTTA, Fabiano Vallas de Carvalho, ressaltou o caráter social do trabalho. “É um trabalho duplamente gratificante, tanto pelo lado pessoal quanto o acadêmico, porque podemos ver a aplicação imediata na recuperação dos pacientes. Ele também trouxe mais notoriedade ao Inatel, com artigos publicados no Brasil e no exterior.”
Outros equipamentos estão sendo desenvolvidos para auxiliar também os deficientes auditivos e visuais. É o caso da bengala eletrônica – que permite detectar obstáculos em alturas diferentes, além de buracos e irregularidades no solo – e doaro magnético, que possibilita às pessoas com deficiência auditiva e que utilizam aparelhos captar a voz do professor ou palestrante sem ruídos.
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