HPS prepara Plano de Incentivo às Doações
HPS prepara Plano de Incentivo às Doações
Maior agilidade e qualidade nas doações de órgãos. Esses, dentre outros, são objetivos da transferencia da sede do MG-Transplantes para as dependências do Hospital João XXIII, da Rede Fhemig, que passará a administrá-lo. A previsão, de acordo com o diretor hospitalar da Rede, Guilherme Riccio, é de que o número de doações aumente em pelo menos 50%. Segundo ele, quase 70% das doações são feitos no João XXIII, um dos maiores hospitais de urgência da América Latina.
Para melhor funcionamento do MG Transplantes, serão realizadas diversas mudanças. Existe a proposta de o MG ter um veículo próprio e exclusivo para transporte de órgãos, além de uma aeronave contratada para o mesmo fim. “Queremos reduzir significativamente a fila de espera de transplantes, salvando centenas de pessoas e dando qualidade de vida a muitos jovens que estão em plena fase produtiva“, ressaltou Guilherme Riccio, acrescentando que a Fhemig é que tem a cultura de doação e de atendimento ao paciente com morte cerebral.
Doadores e fila de espera
O diretor do João XXIII, Charles Simão Filho, disse que a sede do MG Transplantes será instalada no 1º andar. Ele esclareceu que o hospital não irá realizar transplantes, mas ficará responsável pelos possíveis doadores, a partir do momento em que for diagnosticada a morte encefálica. Ele explicou ainda que a operação de retirada dos órgãos pode ser feita no João XXIII ou mesmo no hospital em que for realizada a cirurgia do receptor.
Segundo Charles Simão, são duas as principais dificuldades enfrentadas por quem precisa de um transplante em Minas: o número reduzido de doadores e a ausência de equipes especializadas em retirada e manutenção de potenciais doadores. Com a mudança, o hospital terá pessoal capacitado para a manutenção destes potenciais doadores. Os órgãos têm tempo determinado para o transplante: o coração deve ser transplantado em um prazo máximo de quatro horas após ser retirado do doador; o fígado, de 12 a 24 horas; os rins e os pâncreas em até 24 horas. As córneas, que podem ser doadas também nos casos de morte natural, se conservadas em condições ideais, podem ser transplantadas até uma semana após a retirada.
Segundo o coordenador estadual do MG Transplantes, João Carlos Oliveira Araújo, Minas tem hoje seis regionais, todas com o objetivo de conscientizar a população da necessidade de doação e viabilizar as captações. O coordenador estadual lembra que o MG foi criado em 1989 pela Secretaria de Estado de Saúde e tem registrado aumentos sucessivos do número de captações. De janeiro a julho deste ano, foram realizadas mais de 700 transplantes de órgãos e tecidos em Minas Gerais.
Atualmente cerca de 5000 pessoas estão nas filas de espera. Segundo a coordenadora Metropolitana do MG, Aparecida Maria de Paula, apesar de estar estabelecida em lei a obrigatoriedade da notificação de potenciais doadores, a comunicação da morte encefálica pelos hospitais e médicos são poucas, obrigando o MG Transplantes a fazer busca ativa.
As pessoas que necessitam de um transplante de órgão são inscritas pelo seu médico no MG Transplantes. Em Minas Gerais existem dezenas de hospitais credenciados para fazer transplantes em Belo Horizonte, como o Felício Rocho, Biocor, Mater Dei, Hospital das Clínicas, Vera Cruz, São Francisco, Baleia, Evangélico e Santa Casa, e alguns no interior como em Montes Claros, Divinópolis, Uberlândia, Uberaba, Uberlândia, Juiz de Fora, Ipatinga e Alfenas.
O Brasil é o segundo maior transplantador do mundo ( o primeiro são os Estados Unidos), e com o maior número de transplante realizados pelo público de saúde. Segundo Aparecida Maria, 92% dos transplantes são custeados integralmente pelo Sistema Único de Saúde, com tudo o que existe de melhor em tecnologia. “O nosso País é um centro de referência mundial, tanto em qualidade como em quantidade”, ressalta.
Doar é um ato de amor e faz bem
Uma pesquisa realizada na Europa com familiares de pacientes que tiveram morte encefálica mostrou que o ato de doar faz bem. Passados alguns anos da morte do parente, os familiares que concordaram em doar os órgãos continuaram com o sentimento de que fizeram um bem. Já os que não doaram, se arrependeram logo que passou o impacto da dor.
“É uma chance de vida para quem não tem esperança nenhuma”. É dessa forma que a faxineira Elenice Rodrigues de Souza, 29 anos, define a doação. No dia 30 de abril de 2002, o irmão de Elenice, Ronaldo Rodrigues, na época com 29 anos, teve morte encefálica e todos os seus órgãos foram doados. “Lembrei de uma conversa que tivemos pouco tempo antes em que Ronaldo dizia que se acontecesse alguma coisa com ele gostaria de ajudar alguém, com doações”. Hoje, disse, seu irmão continua vivo, “nos pedacinhos que deixou salvando vidas”.
Para ela, se Deus manteve os órgãos de seu irmão perfeitos é porque ele deveria ajudar e, além disso, essa era a única forma que os receptores tinham de se manterem vivos. Elenice valoriza a doação pensando em quem está precisando e em seus familiares que querem manter aquele ente querido vivo. “Todos deveriam fazer o mesmo, porque se houvesse transplante de cérebro meu irmão estaria vivo”, analisa.
Sem nunca ter passado pela necessidade de um órgão para sobreviver, Elenice sabe muito bem o que um receptor sente. “É uma chance e ele quer se agarrar nela”. Para ela, a doação é uma forma de ajudar o próximo. E dá um conselho par quem não é a favor da doação. “Coloque-se no lugar do receptor e pense que esta é a única maneira de você sobreviver”.
A idade de Lucas César, um ano e dez meses, não foi empecilho para que ele pudesse salvar muitas vidas. Vítima de um tumor no cérebro, ele teve morte encefálica em maio deste ano e o pai, Luiz César Pereira, 23 anos, viu na doação uma forma de ajudar quem estava precisando. Lucas era filho único. “Perdi meu filho, mas também pensei em outros pais que poderiam passar pela mesma situação”, comentou.
Tanto Elenice quanto Luiz César se colocaram no lugar de um receptor e avaliaram a importância da doação. Luiz César foi mais além. Agradeceu o fato de Lucas não ser portador de um tumor maligno, pois assim não poderia ser doador. “Se fosse meu filho que estive dependendo de um órgão e aparecesse alguém para doar, acharia muito bacana”, disse.
Vida nova
Um coração doado pelos familiares de um rapaz de 23 anos salvou da morte a médica pneumologista Cláudia Botelho, 45 anos, que tinha como previsão poucas horas de vida. Ela estava internada e todos os seus familiares e amigos já tinham sido chamados para se despedirem dela. Seis horas antes de sua “provável” morte, apareceu o doador. O transplante foi feito em março de 2002 e atualmente Cláudia leva vida normal.
Ela conta que entrou no esquema da prioridade absoluta de um transplante. Foi internada no final de janeiro e transplantada no começo de março. “Não tinha como sair viva do hospital sem um coração novo”, disse, acrescentando que o fato de ser médica fez com que ela percebesse a gravidade da situação.
Antes do transplante, a médica tinha vida limitada. Sobrevivia com um marcapasso (instrumento que estimula artificialmente a contração do músculo cardíaco através de impulsos elétricos) e um desfibrilador (aparelho que dá descarga elétrica para converter arritmia. Cansava-se com o simples ato de amarrar um sapato e ficava ofegante, mesmo quando andava poucos metros.
A sensação que Cláudia sente hoje é de saúde. “Não tenho mais falta de ar e nem inchaços, sinto prazer no cansaço “gostoso” após o exercício físico”, comenta. A médica pneumologista costuma dizer que acabou a sua vida de madame, já que não tem mais restrições ao trabalho. Um dos maiores prazeres de Cláudia é comer com sal, o que antes era proibido.
Em agosto de 2001 a psicóloga Fabiana Borel, 27 anos, submeteu-se a um transplante duplo. Ganhou rim e pâncreas, o que mudou completamente sua vida, antes restrita a sessões de hemodiálise três vezes por semana. Ela ficava quatro horas ao lado de uma máquina. Para superar o desespero, agarrava-se aos estudos.
Fabiana, que ficou diabética ainda criança, sofreu muito antes do transplante. Não sentiu nenhum prazer ao voltar de um coma de 54 dias e não se importou de morrer durante a cirurgia de implantação dos novos órgãos, “se esta fosse a única maneira de ficar livre da vida restrita que tinha”. O transplante foi um sucesso.
“Ganhei, literalmente, uma nova vida”, comenta Fabiana, que não esquece o sofrimento pelo qual passou. Para ela, ficar na fila de transplantes é um exercício de fé, já que as pessoas devem agradecer pelo simples fato de terem condições de receber um órgão. Existem casos em que o transplante não é recomendado.
Com 27anos, Fabiana Borel afirma que virou uma adolescente. “Estou tirando a barriga da miséria”, diz, acrescentando que hoje vive o que não conseguiu viver antes. Ela tem muita vontade de ajudar outras pessoas e acha que as campanhas deveriam também mostrar à população o modo de se fazer a doação de órgãos.
O que é morte encefálica?
Após certos acidentes (traumas), falta prolongada de oxigênio, derrames ou tumores cerebrais, as células do encéfalo morrem e param de emitir ordens rotineiras para a respiração e funções dos outros órgãos que, inevitavelmente, irão parar também. O encéfalo é a parte do sistema nervoso contida na cavidade do crânio. Ele é constituído pelo cérebro e tronco cerebral, responsável pelo pensamento e controle de funções essenciais do organismo, como a respiração, temperatura, pressão.
O que é o coma?
O coma ocorre quando a pessoa fica inconsciente, porém executando funções de manutenção da vida, mesmo que com dificuldade. Nesse casos, o médico tem a obrigação de continuar lutando pela vida do paciente, através do tratamento.