Iepha resgata técnicas antigas de construção durante curso
Novas tecnologias construtivas surgem a cada ano e substituem antigos modos de fazer, que acabam esquecidos. Entretanto, quando se trata da restauração de bens culturais históricos, o conhecimento de técnicas específicas de períodos passados é fator essencial para garantir sua preservação sem que haja descaracterização.
BELO HORIZONTE (28/05/09) - Novas tecnologias construtivas surgem a cada ano e substituem antigos modos de fazer, que acabam esquecidos. Entretanto, quando se trata da restauração de bens culturais históricos, o conhecimento de técnicas específicas de períodos passados é fator essencial para garantir sua preservação sem que haja descaracterização.
A carência de profissionais que possuam domínio do fazer tradicional é uma preocupação constante para proprietários de imóveis históricos e para os órgãos de preservação patrimonial. Para resolver esse “entrave” na aprovação de projetos de obras de restauração que recebe quase diariamente, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha) organizou o “Curso de arquitetura de terra: resgate de técnicas tradicionais de construção”, realizado nos meses de abril e maio. O objetivo do curso é capacitar arquitetos, engenheiros, mestres de obra e operários da construção civil para o cuidado específico com imóveis históricos.
Pitangui foi o município escolhido para a realização da primeira edição do curso - outras cidades devem receber o treinamento em breve. A escolha, de acordo com o gerente de Projetos e Obras do Iepha/MG, André Veloso, veio a partir da identificação de uma carência realmente expressiva de mão-de-obra qualificada no município. Considerada sétima vila de Minas Gerais, Pitangui possui um conjunto histórico bastante rico e heterogêneo, que reúne construções do século 17, 18 e 19. “Detectamos uma demanda muito alta de serviço especializado e pouca gente capaz de atendê-la. Era bastante difícil encontrar profissionais capazes de fazer a conservação dos monumentos sem descaracterização construtiva, mantendo a lógica e a tecnologia construtiva original”, explica Veloso.
Cadastro
O curso acontece em duas fases, de três dias cada. A primeira aconteceu em abril e incluiu, além da iniciação teórica sobre a importância da preservação de bens culturais, o ensino das técnicas da taipa, pilão, adobe e pau-a-pique. Os participantes também utilizaram a última técnica para fazer a restauração real de uma edificação que sofreu danos com o impacto de um automóvel.
Durante o segundo módulo, em maio, os alunos restauraram outro imóvel, usando adobes e argamassas em cal, tecnicamente adequadas para construções em terra. Várias novidades para o pedreiro José Antônio Gonçalves, que nunca tinha trabalhado com nenhuma das técnicas apresentadas. “Achei tudo muito interessante, bem diferente da forma como sempre trabalhei. Gostei, aprendi muito e agora me sinto preparado de verdade para trabalhar com construções históricas”.
O presidente do Conselho Municipal de Patrimônio de Pitangui, Ronan Ivaldo, explica que o curso foi muito importante para a preservação do patrimônio local. “A realização de qualquer trabalho de restauração sempre foi um problema enorme no município porque não tínhamos como exigir a recomposição correta de uma fachada de pau-a-pique ou adobe, por exemplo, já que não haviam profissionais habilitados para as técnicas da arquitetura do século XVIII. Por falta de mão-de-obra capacitada, os imóveis acabavam sendo descaracterizados sem que nós pudéssemos cobrar com rigor”, conta.
As aulas foram ministradas pelo arquiteto Raimundo Rodrigues, consultor licenciado pela Unesco e pelo Programa Monumenta. Os participantes receberam certificado emitido pelo Iepha, e farão parte de um cadastro especial de profissionais capacitados para a restauração estrutural de imóveis históricos. A idéia é que o curso ganhe novas edições, se estendendo a outras regiões do estado onde também seja verificada maior escassez de profissionais capacitados.