Jovens do Fica Vivo! revelam talento com dança e cidadania
Os jovens do programa Fica Vivo! já têm agenda para o espetáculo "Juventude é Viver?", no próximo mês, em Ipatinga e Governador Valadares, e, em setembro, em Ribeirão das Neves. O espetáculo reúne música, dança, teatro e poesia, e retrata a realidade dos jovens dos morros, aglomerados e periferias.
BELO HORIZONTE (28/07/08) - Os palcos são montados em campos de futebol, onde luzes coloridas iluminam telas em grafite. Os painéis retratam o ambiente dos morros, com barracos superpostos e ladeiras sinuosas. Uma mesa de boteco com instrumentos de percussão reciclados arrematam o cenário. O espetáculo “Juventude é Viver?”, do grupo Ação em Movimento, formado por jovens do programa Fica Vivo! das comunidades de Vila Ventosa, Morro das Pedras e Granja de Freitas, já tem agenda para agosto, em Ipatinga e Governador Valadares, e, em setembro, em Ribeirão das Neves.
O espetáculo reúne música, dança, teatro e poesia, e retrata a realidade dos jovens dos morros, aglomerados e periferias. Os atores-dançarinos dividiram o palco com cantores-instrumentistas e animaram a platéia que batia palmas cadenciadas, seguindo o ritmo do musical.
Wanderley Batista Dias, do Morro das Pedras, foi até a comunidade de Santa Maria assistir à apresentação. Ele, que tem um grupo de rap chamado “Coquetel Periférico” e já participou de oficinas do Fica Vivo!, se diz impressionado com o resultado. “Além do planejamento e da estrutura de palco, mandaram uma mensagem muito positiva para a juventude. O morro tem muitos talentos”, ressaltou.
Tudo começa em um bar onde amigos conversam e trocam idéias sobre a vida, ao som de batuques e do cavaquinho de Mário da Viola. O idealizador do projeto, que tem o incentivo da Lei Federal de Incentivo à Cultura (Lei Rouanet), Wenderson Nonato, também faz parte da mesa, ao lado de Nery Fábio Lopes, autor de duas das músicas que embalam as coreografias: “Bem Cedo” e “Jovens Conscientes”.
A letra da primeira composição revela um olhar aguçado do jovem de apenas 23 anos: “Quantos jovens como eu têm essa missão de pôr na mesa de casa um arroz com feijão”. Ao mesmo tempo, meninos e meninas apresentam números de capoeira, street dance e ginástica com fita, representando crianças e adolescentes que sustentam suas famílias por meio do trabalho nas ruas.
Em seguida, Nery recita uma poesia de autoria de Wenderson, intitulada “A voz do morro”. Uma música suave dá o tom da coreografia executada só por garotas que, de malhas azuis e lenços em punho, revelam a delicadeza que existe na periferia. O próximo ato é carregado de simbolismos e utiliza uma rede para mostrar a divisão entre o morro e as outras áreas das cidades. De branco, os representantes das favelas; de negro, os homens do asfalto.
Os amigos prosseguem o diálogo e rememoram os tempos de infância, quando brincadeiras como esconde-esconde, carrinho de rolimã e rouba-bandeira ocupavam as horas e o imaginário deles. Nova coreografia tem início. Jovens vestidos de colegiais representam uma época – não muito distante –, substituída pelos computadores, videogames e a televisão.
Ao final, a música “Jovem Consciente”, que mistura samba e hip hop, causa grande empatia no público, que dança junto com os dançarinos. A letra resume o espírito do espetáculo, como uma resposta ao questionamento contido em seu nome: “Sem violência, pode crer, tô na paz sem me drogar, quero a vida aproveitar, porque juventude é viver”.
Amanda Pereira da Silva, 15 anos, uma das estrelas do espetáculo, acredita que quando as pessoas têm um ideal, as coisas acontecem. “Estou muito feliz e realizada, principalmente porque a comunidade passou uma energia muito boa. Espero ter contribuído para mostrar a outros jovens que a violência e o crime não são o único caminho para nós, dos morros”, afirmou. A mãe, Maria Aparecida Pereira da Silva, orgulha-se da filha, que sonha em ser bailarina profissional. Conforme destacou, “Amanda sempre foi louca por dança. Hoje, sinto que irá cada vez mais longe. Agradeço ao grupo e ao Fica Vivo! pela oportunidade que deram a ela”.
Gleisson de Jesus, 25 anos, também dançarino, traduz sua visão do show: “Foi muito bacana; interagirmos com outra comunidade. Assim, eles podem ver que somos todos iguais e ter a consciência de que as rivalidades não fazem sentido, já que falamos a mesma linguagem”, destaca.
O cenário de “Juventude é Viver?” é assinado pelo artista plástico Wagner Brassini, que fez grafitagens para o cineasta Helvécio Ratton, no filme “Uma onda no Ar”. A iluminação fica por conta de Rui Moreira, ex-bailarino do grupo Corpo e diretor da Companhia SeráQuê?.
Redução de homicídios
O Programa de Controle de Homicídios Fica Vivo! foi criado pela UFMG em 2002 e assumido como política pública do Governo de Minas em 2003. Por meio das ações preventivas, contribuiu para reduzir em mais de 50% o número de mortes de jovens nas áreas onde está instalado. Voltado para o atendimento de jovens de 12 a 24 anos em situação de risco social e residentes nas áreas com maior índice de criminalidade de Minas, o programa oferece 552 oficinas diversas, em áreas como esporte, cultura, comunicação e inclusão produtiva, contemplando oficinas profissionalizantes.
Através das oficinas, milhares de jovens estão sendo despertados para novos interesses, se afastando da criminalidade e tendo a oportunidade de inserção social e de ingresso no mercado de trabalho. Atualmente, mais de 13 mil jovens estão envolvidos no programa, participando de atividades nos núcleos implantados em Belo Horizonte, Vespasiano, Contagem, Betim, Santa Luzia, Ribeirão das Neves, Sabará, Montes Claros, Uberlândia, Governador Valadares, Ipatinga e Uberaba. Entre 2003 e 2007, as oficinas atenderam 31.966 jovens.
O Fica Vivo! é desenvolvido em parceria com o Governo do Estado, por meio do Sistema de Defesa Social, o Poder Judiciário, o Ministério Público, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e as prefeituras dos municípios onde os núcleos estão instalados.
O programa também trabalha com a criação de redes comunitárias que incentivam a participação dos jovens e buscam soluções locais para prevenir a criminalidade. Os Núcleos de Prevenção à Criminalidade são espaços instalados nas próprias comunidades para prestar atendimentos, estabelecer novas parcerias, acompanhar os jovens e coordenar as oficinas que acontecem em locais estrategicamente espalhados na comunidade, de forma a facilitar o acesso dos jovens.
Agenda
16 de agosto – Ipatinga - Campo de Futebol de Iguaçu
30 de agosto - Governador Valadares - Campo de Futebol Copervale
13 de setembro - Ribeirão das Neves - Campo de Futebol Grêmio Azul
Entrada Franca