Minas facilita certificação de propriedades cafeeiras
A Meta do Certifica Minas é conceder o selo a 380 propriedades de café até o final de 2008. O custo das certificadoras internacionais pode chegar a R$ 20 mil. Em contrapartida, os agricultores familiares podem pagar o preço de uma saca de café verde, de aproximadamente US$ 150.
BELO HORIZONTE (18/07/08) - A certificação de propriedades rurais com cultivo de café está mais próxima do produtor mineiro. Enquanto o processo feito por certificadoras internacionais tem um custo elevado, pode chegar a R$ 20 mil, os agricultores familiares prioritariamente beneficiados pelo Certifica Minas podem pagar o preço de uma saca café verde (não torrado), aproximadamente US$ 150, valor variável em função da cotação do grão.
O programa de certificação de propriedades cafeeiras, coordenado pela Secretaria de Agricultura de Minas Gerais e gerenciado pelo Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), é o primeiro do país implementado por um governo estadual. Até o final de 2008 serão certificadas 380 propriedades. Em 2009 serão mais 800.
Desde o início do ano foram contratados 20 técnicos exclusivamente para a certificação das propriedades de café, como informa o coordenador técnico estadual da Emater/ MG, Julian Silva Carvalho. Com isso o programa ganhou fôlego e, até o momento, já foram cadastrados 1.137 propriedades em todo o Estado. Os produtores interessados devem procurar os escritórios da Emater.
A assistência técnica e as orientações para adequação das propriedades é feita pela Emater. Em seguida, o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) faz uma auditoria nas propriedades aptas à certificação. Concluindo o processo, a certificadora internacional Imo control fará a auditoria final e concederá a certificação às propriedades candidatas ao selo.
O processo de certificação da propriedade beneficia o produtor, que obtém um café diferenciado, o consumidor e o meio ambiente. O consumidor é beneficiado ao ter acesso a um produto de melhor qualidade, com informações de como, onde e quem produziu o grão que está consumido. Já o meio ambiente, ganha com a adoção de práticas sustentáveis.
Adequação criativa
A adequação da propriedade às normas ambientais, trabalhistas e condições de higiene no processo de certificação é de responsabilidade do produtor e varia de propriedade para propriedade. Com criatividade, o cafeicultor também pode reduzir drasticamente esse custo.
Em Ervália, na Zona da Mata, a adequação não foi problema para o produtor Adriano Severino Fraga, que usou e abusou da criatividade, como revela o técnico da Emater do escritório de Viçosa, Gabriel Singulano Filho. “Antes de plantar café, Adriano exerceu a atividade de relojoeiro durante anos. A experiência com pequenas engrenagens e a dificuldade em trabalhar numa propriedade com topografia muito acidentada, fez com que ele criasse soluções espetaculares”, avalia o técnico da Emater.
“Adriano criou um sistema de bombeamento de água que transporta todo o café da lavoura para o terreiro por meio de uma canaleta, o que traz economia no transporte e diminui o risco de acidentes”, informa Singulano Filho. Com os investimentos, Adriano Fraga tem chances de fazer parte dos primeiros 380 produtores que serão certificados em 2008 pelo Governo de Minas.
José Eustáquio Fernandes, proprietário junto com sete irmãos do sítio Santo Antônio, na comunidade de São José do Triunfo, em Viçosa, também está adequando seu sítio para garantir o certificado. Ele destaca que além de ter um custo quase zero no processo de certificação, as adequações e os investimentos vão valorizar o patrimônio. Até agora, Fernandes gastou R$ 800 com a construção de um depósito para armazenar produtos químicos e caixas de contenção de águas nas estradas e na lavoura para impedir a erosão.
Segundo Fernandes, depois que iniciou o processo de certificação, a gestão da propriedade ficou mais organizada. “É bom por que obriga a gente a andar mais de acordo com a lei, a ser organizado”, declara. Ele acredita que em breve a certificação será uma obrigação para quem quiser permanecer no mercado.
Da semente até a xícara
Quando inicia o processo de certificação, o agricultor recebe o Caderno de Anotações, no qual registra todas as atividades ligadas à produção, desde os insumos usados, o processo de colheita e pós-colheita e investimentos feitos. A adequação da propriedade segue um cronograma negociado com o agricultor. No primeiro ano 80% das normas têm que ser cumpridas. O índice cresce a cada safra e até o quarto ano 100% das normas deverão ser cumpridas.
As normas definem adequações e exigências que vão garantir que o produto não oferece perigo à saúde do consumidor, pois está livre de contaminação física, química e biológica. Outra vantagem é a rastreabilidade, que permite ao consumidor ter informações sobre o café desde o plantio até a xícara. As boas práticas de produção, o uso adequado do solo e da água, a reutilização dos resíduos e a destinação de 20% da propriedade à preservação ambiental (implantação da Reserva Legal) completam o rol de vantagens.
O assessor especial de café da Secretaria Estadual de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa), Wilson Lasmar, estima que a certificação, em poucos anos, será uma exigência dos mercados interno e externo. “A demanda mundial hoje é pela qualidade e pela garantia de práticas de produção com responsabilidade ambiental e social”, afirma.
Preferência nacional
De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) Minas Gerais é o maior produtor brasileiro de café com 50,3% da produção do país, seguido do Espírito Santo que produz 23,1% do café brasileiro. Em 2007, Minas Gerais exportou 1.106 milhão de toneladas de café ou US$ 2,6 bilhões, enquanto as exportações nacionais somaram 1.573 milhão de toneladas do grão, o equivalente a US$ 3,9 bilhões.
Nas exportações mineiras, o café responde por 13,79% da pauta, perdendo apenas para o minério de ferro com 25,2%. Na composição do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio em Minas, o café representa 52% da produção, seguido pelo setor de carnes com 12,5%. A cultura emprega, direta e indiretamente, 2,3 milhões de pessoas no Estado.
No consumo, o Brasil fica em segundo lugar, atrás apenas dos Estados Unidos. Mantendo o crescimento de consumo na faixa de 5% ao ano, o assessor especial da Seapa, estima que o Brasil será também o maior consumidor mundial de café em 2010. Atualmente, os brasileiros consomem 17,1 milhões de saca (60k cada) por ano de café verde.