Minas Gerais desenvolve projetos de energia alternativa
BELO HORIZONTE (13/02/06) – O Governo do Estado está transformando Minas no maior parque de biodigestores do mundo. Graças a uma parceria do Instituto Estadual de Florestas (IEF) com a irlandesa AgCert International, principal empresa de produção e certificação do setor no mundo, o Estado conta com cerca de 300 biodigestores instalados e em instalação. Todos funcionam com dejetos de suínos e podem gerar energia elétrica usando o biogás. Somada, a capacidade de produção de energia desses 300 é de 60.000 a 70.000 kilowatts/hora.
Se depender dos técnicos do IEF, que fazem o trabalho de sensibilização dos produtores e de aproximação com a investidora, a AgCert, a quantidade de energia gerada aumentará e até poderá ser vendida ao sistema elétrico do país. É que o IEF incentiva uma fabricante de turbinas de Santa Catarina, a PPZ, a criar um tipo de turbina a biogás. "Assim, cada granja poderá ser transformada numa pequena termoelétrica", diz Jadir Silva de Oliveira, coordenador de licenciamento ambiental do IEF. Se a turbina for desenvolvida, a AgCert pretende apresentar à Cemig proposta para que ela compre a energia excedente, o que irá gerar mais renda para o produtor.
"A AgCert está entusiasmada com Minas", diz Paulo Guilherme Furtado, gerente de operações ambientais da AgCert. Tanto que ela já projeta biodigestores específicos para abatedouros, curtumes, frigoríficos, laticínios e fecularias. A razão do entusiasmo é a demanda por seus equipamentos, que deve mesmo aumentar: o Protocolo de Kyoto, não firmado apenas por China, EUA e Índia, determina a redução das emissões de gases poluentes, provocadores do aquecimento global, em cada país. Ele é cada vez maior e por isso a pressão para a redução das emissões tende a subir em igual proporção.
Para reduzir as emissões, o Protocolo de Kyoto reza que os países que não conseguirem atender essa exigência podem, por meio de suas empresas, investir em outros que consigam implantar tecnologias que retirem os gases do ar. Plantando florestas, por exemplo. Outra maneira é evitar a emissão de gases – esse é o negócio da AgCert.
As empresas poluentes compram, das empresas com processos de produção limpos ou das que evitam a emissão de gases, certificados que comprovam o compromisso de redução, o chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL). Em breve esses certificados serão negociados em bolsa.
Funcionamento
O biodigestor, que é uma espécie de tanque cavado na terra e que dispõe de gasômetro e outros equipamentos, cai como uma luva nesse mecanismo de compensação ambiental: a queima do gás, ou sua utilização na geração de energia, evita que o gás metano, produzido pela fermentação dos dejetos dos porcos, seja lançado ao ar. "O metano é 21 vezes mais poluente que o gás carbônico emitidos pelos veículos", diz Oliveira, do IEF.
Quem agradece é o meio ambiente: o biodigestor, além de fornecer biofertilizante obtido das fezes e outros dejetos dos suínos, poupa o lençol freático e o ar que respiramos, pois todo o gás nele produzido é para ser queimado em aquecimento de ambientes, na movimentação de motores ou geração de energia.
Se a sociedade em geral lucra com um meio ambiente mais protegido, o proprietário rural, que não investe nenhum tostão no biodigestor, passa a contar com o gás a custo reduzido. Sem falar do biofertilizante, que dá excelente resultado em lavouras de café e outros produtos agrícolas.
Por sua vez, a AgCert obtém retorno comercializando RCEs-Redução Certificada de Emissões nas bolsas de valores de países signatários do Protocolo de Kyoto. Quem os compra são as empresas poluidoras. Para cada tonelada de gás retirado da atmosfera elas têm direito a emitir outro tanto. Ou seja, na prática, o MDL funciona como uma licença que as empresas dos países poluidores adquirem para continuar poluindo seu próprio país.
Bom negócio
"Um biodigestor se torna atrativo para nós em propriedades que tenham, isoladamente ou em cooperação com vizinhos, pelo menos 4 000 matrizes", informa Furtado. O plantel das granjas que já têm biodigestor é de 80.000 matrizes. A empresa, por 10 anos, fica com 90% do valor de cada crédito (o retorno da AgCert é calculado para 5 anos). Os outros 10% vão para o produtor rural. Findo o prazo, por R$ 1,00 o proprietário da fazenda terá direito ao equipamento e encontrará a AgCert disposta a ceder um percentual maior de seus ganhos em troca dos serviços que presta – manutenção. Na média, nesses 10 anos, o produtor ganhará R$ 50,00 anuais por cada reprodutora.
O negócio da AgCert funciona assim: cada metro cúbico de gás que deixa de escapar para a atmosfera gera um crédito – a empresa instala um medidor para contabilizar o gás utilizado. O valor de cada crédito varia de acordo com o mercado, mas na média tem ficado entre 4 e 6 euros. Com isso, a empresa espera arrecadar três milhões de créditos no Brasil a cada ano. Minas Gerais contribuirá com 1,4 milhão só nas granjas de suínos. "Creio que já investimos mais de 20 milhões de reais no Brasil", diz Furtado. Em Minas, ele acredita que a empresa instalou biodigestores em 70% das granjas de suínos existentes. Uma delas, em Bom Despacho, pertencente ao empresário Rômulo Gontijo, tem o maior biodigestor do mundo.
A granja produz 12,5 mil metros cúbicos por dia, o equivalente a 480 botijões de gás de cozinha, suficientes para gerar 2.400 quilowatts/dia. Só para ter idéia da economia que o biodigestor está trazendo a Gontijo: com essa energia podem-se manter acesas 960 lâmpadas de 100 watts durante 24 horas.
Para saber mais: Protocolo de Kyoto
No Protocolo de Kyoto, ficou estabelecido que os países desenvolvidos comprometeram-se formalmente a reduzir suas emissões de gases para atenuar o efeito estufa em 5% abaixo dos níveis de 1990, com o objetivo para o período 2008 - 2012. Tal ação significa a redução de centenas de milhões de toneladas por ano, com um custo enorme para estas economias.
Espera-se que estes países, por sua vez, repassem os comprometimentos aos seus respectivos setores industriais, através da criação de impostos sobre emissões de gases causadores do efeito estufa. Estes setores deverão encontrar alternativas de se adaptar aos novos custos de produção ou aos limites de emissões. O segundo ponto importante do protocolo é que será aceito o conceito de comercialização de créditos de seqüestro ou redução de gases causadores do efeito estufa. Sendo assim, os países ou empresas que reduzirem as emissões abaixo de suas metas poderão vender este crédito para outro país ou empresas que não atingiram o grau de redução esperado.
Agência Minas
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