Plantio de araruta incentiva agricultores familiares de Juiz de Fora a produzir polvilho
JUIZ DE FORA (28/07/11) - Agricultoras familiares de Juiz de Fora, na Zona da Mata, estão investindo no plantio de araruta e resgatando um antigo costume de preparar alimentos derivados da planta. O objetivo é obter mais uma fonte de renda com a produção de polvilho feito a partir do rizoma (raiz) da hortaliça.
O ingrediente, que pode ser usado na fabricação de biscoitos, bolos, brevidades e mingaus, é considerado saudável, mas quase não é mais utilizado, por ser raro no mercado. O motivo seria a entrada de outras féculas, como a de trigo, milho e principalmente a de mandioca, muitas vezes vendida como se fosse de araruta. E isso acontece a despeito de a ciência reconhecer os benefícios do uso desta farinha, cujo amido é mais digerido pelo organismo.
“Os produtores estão motivados e apostando nesta iniciativa, pois, apesar de o polvilho de araruta ser um produto diferenciado, indicado para a alimentação de pessoas com intolerância ao glúten ou com a chamada doença celíaca, ele não é encontrado no comércio”, garante o extensionista de Bem-Estar Social, Cândido Antônio Rocha, do escritório local da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG), órgão vinculado à Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa).
Para se ter uma ideia de como a produção de polvilho de araruta tem potencial de gerar renda no campo, Rocha cita pesquisa que realizou na internet, onde é possível vislumbrar a lucratividade da venda da farinha. “Fiz um levantamento na internet e só consegui localizar uma empresa na Bahia que produz este tipo de polvilho, em escala comercial. Aqui só é produzido para consumo doméstico. Apurei que eles vendem a R$ 40,00 o quilo do produto”, informa.
Retorno
A agricultora Rita Aparecida Resende, que vende quitandas nas duas lojas do Empório Rural, pontos de venda da Associação dos Produtores Rurais da Agroindústria Familiar de Juiz de Fora (Agrojuf), é uma das produtoras locais que está acreditando no projeto. “Plantei 20 quilos de rizoma e espero colher 400 quilos. Pretendo transformar uma parte em polvilho, plantar o restante e produzir quitandas para os empórios da Agrojuf e para a feira da Associação de Produtores de Produtos da Agroindústria Familiar (Agrofar)”, revela.
Segundo a agricultora, a capacidade de transformar araruta em polvilho, foi aprendida com seus antepassados. Atualmente ela conta com a ajuda do marido, filhos e da mãe, na propriedade cuja principal atividade ainda é a produção de leite. Apesar de considerar R$ 40,00 um bom valor para remunerar o quilo do polvilho de araruta, Rita admite que ainda não fez cálculos, mas espera ter um retorno que compense o esforço despendido na tarefa. “Espero ter um rendimento satisfatório, pois fazer o polvilho dá muito trabalho. Tem de colher, lavar, ralar, peneirar, deixar de repouso e esperar dois dias para secar”, justifica. Segundo a agricultora, a araruta que foi plantada no ano passado, já está sendo colhida.
“Como diz o ditado, quem não planta não come”, sintetiza a agricultora familiar Maria de Lourdes Dias, a Lourdinha, da comunidade de Torreões, que a exemplo de Rita está investindo no plantio de araruta para polvilho. Segundo ela, apesar do gado ter invadido a lavoura e destruído a maior parte da plantação, o que restou ainda vai permitir o início de outro plantio. Lourdinha também é associada à Agrojuf e vende produtos da agroindústria familiar nas lojas do empório e na feira do Centro de Juiz de Fora.
Outra que também resolveu encarar o desafio foi a produtora familiar Silvana de Paula, moradora do distrito de Rosário de Minas. Dona de uma propriedade de 51 hectares, Silvana ainda aguarda o ponto de colheita dos 20 quilos de rizomas plantados em uma área de 50 metros quadrados. “Já deveria estar colhendo, mas o terreno é muito úmido e atrasou. Minha intenção é replantar tudo que eu colher, pois quero triplicar a próxima área. Faço biscoito de cebola e goiabinha, mas percebo que existe muita procura dos clientes por biscoito de araruta”, conta. Assim como Rita e Lourdinha, Silvana também vende seus produtos na Empório Rural, sendo filiada à Agrojuf.
Capacitação
Além da assistência de rotina, a Emater-MG já promoveu diversas oficinas para capacitar os produtores interessados, sendo a última no início deste mês. Segundo o extensionista Cândido Rocha, no momento, o escritório local está empenhado em testes para incentivar a utilização do desintegrador de milho, em substituição ao liquidificador industrial, usado para ralar o rizoma da araruta. “Usado na produção de fubá, o desintegrador poderá baixar os custos já que apresenta maior rendimento e o liquidificador é mais caro. Além disso, a maioria dos agricultores tem este equipamento”, explica.
Segundo o técnico, o cultivo de araruta em Juiz de Fora é resultado de uma ação do projeto do banco de sementes e mudas de hortaliças não convencionais. A iniciativa distribuiu mudas a produtores locais, e vem trabalhando desde 2009 o resgate do uso de hortaliças tradicionais, quase em extinção. O trabalho é feito em parceria com o Ministério da Agricultura, Embrapa, Epamig e Secretaria de Agropecuária e Abastecimento de Juiz de Fora.