Portadores de fissura labiopalatal recebem tratamento integral em Minas
Há dois anos, pacientes de Minas Gerais que precisavam de tratamento integral para a fissura labiopalatal (abertura no céu da boca, no lábio e no nariz) tinham que se deslocar para a cidade paulista de Bauru, a 731 quilômetros de Belo Horizonte. Esta realidade mudou a partir da criação do Centro de Reabilitação de Fissuras Labiopalatais e Deformidades Craniofaciais (Centrare), parceria entre a Fundação Benjamin Guimarães, instituição mantenedora do Hospital da Baleia que é conveniado com o SU...
BELO HORIZONTE (03/10/06) – Há dois anos, pacientes de Minas Gerais que precisavam de tratamento integral para a fissura labiopalatal (abertura no céu da boca, no lábio e no nariz) tinham que se deslocar para a cidade paulista de Bauru, a 731 quilômetros de Belo Horizonte. Esta realidade mudou a partir da criação do Centro de Reabilitação de Fissuras Labiopalatais e Deformidades Craniofaciais (Centrare), parceria entre a Fundação Benjamin Guimarães, instituição mantenedora do Hospital da Baleia que é conveniado com o SUS, e a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC/MG).
O Centro de Reabilitação foi inaugurado em novembro de 2004 e funciona no próprio hospital, sendo referência no atendimento da patologia no Estado, com procedimentos de alta complexidade. Atualmente o Centrare tem mais de 1.200 pacientes cadastrados, a maioria crianças, que contam com atendimento multidisciplinar em diversas especialidades. O hospital oferece a parte médica: anestesista, pediatra, cirurgião plástico, otorrino e suporte em geral; a PUC-MG disponibiliza os serviços de odontologia, fonoaudiologia, nutrição, enfermagem, geneticista, sociólogo, psicólogo e outros.
O coordenador médico do Centrare, Renato Lage, esclarece que as fissuras labiopalatais são má formações congênitas exteriorizadas pela ruptura da integridade do lábio e/ou palato, acarretando, freqüentemente, em alterações na face, na boca e nos dentes. Esta abertura ocorre entre a 4ª e a 12ª semana de gestação. “As fissuras também podem envolver outras estruturas da região oral, nasal, ocular e craniana”, conta.
Lage ressalta que a fissura é algo comum e que pode atingir pessoas de diferentes classes sociais, embora seja mais recorrente em famílias de baixa renda. “A proporção de ocorrências, no Brasil, é de um fissurado a cada 650 nascidos vivos. Pode ser mais comum em filhos de mães mal nutridas, que geralmente não fazem o pré-natal de forma adequada. Estes fatores são mais corriqueiros em mães de perfil socioeconômico mais baixo, embora não seja possível descartar outras causas, como por exemplo, o tabagismo, bebida, cremes de pele com vitamina ‘A’, medicamentos, radiação, agrotóxicos, drogas em geral, presente em diversas faixas da população”.
Renato Lage, que é cirurgião plástico, explica como é a base do tratamento. “No caso das fissuras labiopalatais, baseia-se na odontologia, tendo como ponto de equilíbrio a atuação da cirurgia plástica e da fonoaudiologia. As demais especialidades funcionam como tratamento de suporte”. São feitos cerca de 300 atendimentos mensais, sendo, em média, 30 cirurgias.
Quando uma criança é identificada como portadora da Fissura Labiopalatal, a equipe da maternidade orienta a família a buscar o tratamento. Para quem vive na capital, a indicação é procurar o Pronto Atendimento Municipal (PAM) do Padre Eustáquio, onde será feita a triagem para encaminhamento ao Hospital da Baleia. Já os pacientes do interior devem procurar a secretaria municipal de saúde de seu município e solicitar o Tratamento Fora do Domicílio (TFD). A secretaria municipal de saúde faz o encaminhamento do caso para a Gerência Regional de Saúde para que o paciente receba o tratamento em BH.
De acordo com Lage, obter informações é fundamental para que a mãe saiba como amamentar a criança para que ela ganhe peso e esteja em boas condições para as cirurgias. “A primeira cirurgia pode ser feita a partir de três meses de idade do bebê”, explica o médico.
Apesar da maioria dos atendimentos serem aplicados nas crianças, ainda é comum adultos que não tiveram qualquer tratamento. “Devido à falta de divulgação, muitas pessoas não sabem o que é a fissura. Somente em setembro, operamos 15 adultos, entre 18 e 25 anos. Podemos realizar as correções através das cirurgias, mas a fala ainda fica prejudicada, já que o paciente adquire mecanismos automáticos ao pronunciar as palavras. Quanto mais cedo iniciarmos o tratamento, melhor para o paciente, inclusive na sua inclusão social”, destaca o cirurgião.
Extensão universitária
Uma característica importante do Centro de Reabilitação é conciliar o atendimento médico com a formação dos profissionais da área de saúde. O coordenador geral do Centrare, Ildeu Andrade Júnior, ressalta a relevância desta iniciativa, para que o paciente tenha atenção integral. “Recebemos alunos já formados, que estão fazendo pós-graduação, seja especialização ou mestrado. A partir disso, temos uma interação entre todas as áreas, da psicologia até a odontologia, o que permite que todos saibam o andamento do tratamento do paciente. É um verdadeiro trabalho de equipe. Assim combinamos a experiência do Hospital da Baleia junto aos fissurados, trabalho que tem mais de 25 anos, com a busca de aprendizado dos alunos da universidade”.
Para ampliar as condições de atendimento aos pacientes e aos familiares, está em andamento um projeto para construção de uma casa de apoio. A intenção é oferecer estadia, apoio psicológico e assistência social para quem vem do interior de Minas Gerais e até de outros estados. “Temos cerca de 25 mil casos em Minas e, desses, 31% vêm do interior”, explica o coordenador Ildeu Andrade Júnior.
De acordo com Andrade, as obras devem começar até dezembro. “O projeto arquitetônico já está pronto. Estamos escolhendo o terreno. O problema é que os locais próximos ao hospital são formados por áreas de preservação ambiental. Isso depende de negociação”.