Secretários discutem novo modelo de gestão do SUS
Secretários discutem novo modelo de gestão do SUS
Propostas de mudança do modelo de execução do Sistema Único de Saúde (SUS), sem ferir os princípios fundamentais da universalidade, integralidade e eqüidade, vêm sendo intensamente debatidas nos seminários regionais promovidos pelo Colegiado de Secretários Municipais de Saúde de Minas Gerais (Cosems/MG). A terceira edição do evento, que acontece em Diamantina, reúne gestores, profissionais e conselheiros de saúde de diversos municípios mineiros e de outros estados, no auditório da Fafeid. Em sua palestra, nesta sexta-feira (25), o secretário de Estado de Saúde, Marcus Pestana, lembrou que “a Constituição garante a saúde como direito de todos e dever do Estado e, para isso, prevê a descentralização do sistema, a ativa participação da comunidade e a ação solidária da União, Estados e Municípios”.
Pestana ressaltou que o cumprimento dos dispositivos constitucionais, no entanto, enfrenta grandes dificuldades em função do Brasil ser um país em desenvolvimento, marcado por enormes restrições fiscais e um Produto Interno Bruto (PIB) per capita muito baixo. “Mesmo considerando todas as restrições e problemas, temos resultados a comemorar. O SUS é o maior programa de inclusão social da história brasileira. São quase 12 milhões de internações anuais, 1 bilhão de procedimentos de atenção primária, 153 milhões de consultas médicas, 2,6 milhões de partos por ano, 251 milhões de exames laboratoriais, 132 milhões de atendimentos de alta complexidade e 23 mil transplantes anuais. Números impressionantes, ainda que tenhamos que avançar muito na questão da qualidade”, defendeu.
A opinião do secretário é compartilhada pelo médico sanitarista Gilson Carvalho, um dos participantes do Movimento da Reforma Sanitária Brasileira, que culminou com a criação e implantação do SUS no País. Gilson Carvalho proferiu palestra sobre os desafios que o atual momento de construção do SUS impõe especialmente aos secretários municipais de saúde: “Sou sanitarista há 40 anos e médico há 30 anos. Tenho certeza absoluta que evoluímos e já melhoramos muito, mas a lei do SUS, como todas as leis, precisa ser praticada e isso exige um aprendizado contínuo”, enfatizou.
O sanitarista enalteceu a iniciativa do Cosems/MG de realizar seminários regionalizados: “Temos mais de 5.600 municípios no Brasil; só em Minas são mais de 800 com rendas per capita, recursos e culturas diferentes. Os seminários são importantes para confirmar posições acertadas e corrigir os equívocos, além de trazer informações novas. É uma adequação permanente”.
Para Gilson Carvalho, atualmente, os principais problemas no SUS são insuficiência de recursos financeiros e ineficiência ou “mal uso do dinheiro”. Nesse sentido, ele propõe firmeza na pressão por mais recursos financeiros para a saúde, combate a toda forma de corrupção e melhor aplicação das verbas disponíveis. De acordo com ele, um novo modelo de execução do SUS – “sem abrir mão da universalidade, integralidade e eqüidade” -, deveria ser centrado no tripé “promoção, proteção e recuperação da saúde”. Aos secretários municipais, ainda enfatizou: “É preciso conhecer, primeiro, as necessidades de saúde de sua população, para que possa haver planejamento prévio sobre os serviços a serem ofertados”.
Discussões descentralizadas
“Os encontros regionais têm sido muito positivos. Levamos as discussões para as regiões e não o contrário. Debatemos as dificuldades dos municípios em relação ao SUS, na perspectiva de buscar soluções. As propostas são para a melhoria do sistema”, afirmou o presidente do Cosems/MG, Luiz Felipe Caram, secretário municipal de Saúde de Mário Campos. Ele enfatizou que alguns problemas são comuns a todos os municípios, mas a regionalização das discussões tem revelado, também, dificuldades específicas de cada região. “Na região de Diamantina, por exemplo, um grande desafio é a fixação do profissional de saúde no município”, disse.
Os seminários, conforme ressaltou Luiz Felipe Caram, deverão resultar em uma grande proposta de mudança da política de financiamento e gestão do SUS, “que possa efetuar transferências de recursos fundo a fundo, por critérios per capita e de necessidades de saúde, com base em indicadores epidemiológicos”. Os seminários regionais já foram realizados em Patrocínio e Tiradentes. O próximo acontecerá em Salinas e, em seguida, Belo Horizonte.
O presidente regional do Cosems/Diamantina, Geraldo de Fátima Oliveira, secretário municipal de Saúde de Gouveia, deixou claro: “Os seminários são uma oportunidade única de compartilharmos nossas experiências. Não podemos nos esquecer das disparidades regionais. O Vale do Jequitinhonha, por exemplo, merece tratamento diferenciado; a eqüidade presente na legislação do SUS”. Além disso, Geraldo Oliveira ressalta que os seminários também oferecem oficinas que “são muito práticas, voltadas para a realidade dos municípios. É fundamental ter conhecimento e tentar aplicá-lo para melhorar o sistema”.
A mercantilização da saúde foi condenada pelo presidente do Colegiado Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), Luiz Odorico, secretário municipal de Saúde de Sobral (CE). “O SUS não é apenas uma experiência única no mundo como sistema, mas também um modelo de descentralização administrativa que não existe igual no planeta. Muitos municípios brasileiros só conseguiram se estruturar como Estado a partir do processo de municipalização da saúde”, enfatizou.
Pró-Hosp
O prefeito de Diamantina, Gustavo Botelho, também ressaltou a importância da eqüidade, lembrando que as dificuldades dos moradores do Vale do Jequitinhonha são “maiores do que as dos demais”. No entanto, com a aplicação do princípio da eqüidade pela Secretaria de Estado de Saúde (SES), segundo ele, “somente agora estamos conhecendo melhorias no sistema de saúde”. A secretária municipal de Saúde de Diamantina, Cinara Lemos Souza, explicou que o Programa de Fortalecimento e Melhoria da Qualidade dos Hospitais do SUS/MG (Pró-Hosp), desenvolvido pela SES, já aponta resultados positivos na cidade.
Diamantina possui 47 mil habitantes e 94% da população é dependente do SUS. Como pólo microrregional, esclareceu Cinara Lemos Souza, o município recebeu recursos da ordem de R$ 1,79 milhão do Pró-Hosp, destinados à melhoria da Santa Casa e do Hospital Nossa Senhora da Saúde. “Estamos ampliando o serviço de hemodiálise e melhorando a estrutura para CTI, entre outros benefícios”, contou. Outros R$ 1,13 milhão do Pró-Hosp serão investidos na região, a partir do lançamento da segunda fase do programa, previsto para o próximo mês.
Para Cinara Lemos Souza, os seminários regionais do Cosems/MG têm proporcionado a troca de experiências e idéias, o que contribui para a melhoria do SUS no Estado.
A secretária municipal de Saúde de São Domingos do Prata, Maria da Luz Aparecida Garcia, foi enfática: “O seminário serve para capacitação mesmo. O conhecimento adquirido e o contato com colegas ajudam nas dificuldades que vivenciamos em nosso dia-a-dia. Aqui, por exemplo, fiquei sabendo que é possível firmar parcerias e que um parceiro importante é o Ministério Público, que pode garantir eficácia nas ações de fiscalização da Vigilância Sanitária. Volto para casa com idéias novas”.
O seminário regional dos Secretários Municipais de Saúde em Diamantina será encerrado neste sábado (26). Ainda em Diamantina, o secretário Marcus Pestana visitou o Centro de Reabilitação Auditiva do Hospital Nossa Senhora da Saúde.