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Selo auxilia tratamento de doença em recém-nascidos

Segunda-feira | 29/12/2008 | 14:10·Atualizado em 17/06/2013 | 23:47
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BELO HORIZONTE (29/12/08) - O professor Rodrigo Fernando Bianchi, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), região Central de Minas Gerais, resolveu se envolver em um projeto para ajudar, e muito, os recém-nascidos. O trabalho de Bianchi consiste na criação de um dispositivo de material orgânico luminescente, na forma de um selo adesivo que, exposto à radiação, muda de cor. Batizado de selo inteligente, ele vai contribuir no tratamento de uma grave doença que atinge cerca de 1,5 milhão de bebês no Brasil, durante o ano. Trata-se da icterícia neonatal, que provoca a morte de neurônios, causando seqüelas e até levar à morte. O professor investiu nos estudos depois que recebeu apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig).

A pesquisa é desenvolvida por cientistas do Laboratório de Polímeros e Propriedades Eletrônicas de Materiais da Universidade Federal de Ouro Preto, coordenada pelo professor Bianchi.O grupo de pesquisa de Bianchi faz parte da rede do Instituto Multidisciplinar de Materiais Poliméricos do CNPq, coordenado pela professora Yvonne Primerano Mascarenhas, que é titular do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo. “Nosso papel dentro da rede é o desenvolvimento de eletrônica orgânica para uso em sensores de radiação”, diz o pesquisador.

Atualmente, o tratamento contra a icterícia é à base de fototerapia, ou banho de luz, preferencialmente azul. Ela age sobre a criança, convertendo a bilirrubina em uma substância inofensiva. Entretanto, o tratamento nem sempre é feito da maneira adequada. Em alguns casos, os bebês são expostos a fontes luminosas erradas, mal posicionadas ou por tempo insuficiente, conforme alerta feito por cientistas do mundo todo.

O dosímetro desenvolvido pela equipe da Ufop se assemelha a um selo e é composto por moléculas orgânicas que têm propriedades luminescentes e que mudam de cor com a radiação. Fixado sobre a pele ou a fralda do bebê, ele indica o tempo ideal de exposição à luz. Na cor vermelha, o selo indica que a criança ainda não recebeu radiação suficiente. Com a prolongação do banho de luz, o adesivo fica amarelo, indicando que o tempo de radiação está a “meio caminho”. A cor verde indica que o tempo de exposição já foi suficiente e, se o exame de sangue comprovar a normalização da bilirrubina no organismo, o tratamento pode ser interrompido.

De acordo com Rodrigo Bianchi, uma das vantagens do adesivo é que, ao ser fixado na própria criança, ele mostra se ela já foi exposta ou não à dose de radiação prescrita pelo seu pediatra, uma vez que, se o bebê for temporariamente retirado do banho de luz e parar de receber radiação, o selo também pára o processo de mudança de cor. “É comprovado que a sensibilidade à dor de uma criança é muito superior a de um adulto. O exame de sangue para um bebê é muito doloroso. Nossa proposta é que, antes de fazê-lo, os profissionais da área de saúde tenham certeza de que o recém-nascido recebeu a dose de radiação correta”, explica.

Outro benefício é o baixo custo. Segundo o pesquisador, enquanto uma seringa custa cerca de R$ 0,30, o preço do selo não ultrapassa R$ 0,10. “Além disso é um produto ecologicamente correto, pois seu principal constituinte é facilmente reciclado”, diz Bianchi. Segundo ele, até então, o mercado contava com produtos que, embora tenham propósito parecido, são de funcionamento bem diferente, ineficientes para medir doses de fototerapia.

O produto pode, ainda, ter outros usos. Segundo o coordenador das pesquisas, o dispositivo também pode ser útil no monitoramento da dose de radiação em bronzeamento artificial, no tratamento do vitiligo e no controle da exposição de trabalhadores a raios ultra-violeta. “A pessoa pode se expor a determinada quantidade de radiação e o dosímetro é uma forma de quantificar e qualificar a radiação absorvida”, diz Bianchi.

O pedido de patente para o dosímetro formado pelo conjunto de ampolas foi depositado em janeiro de 2007 e aguarda análise do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Para o segundo pedido, que inclui o material utilizado e a metodologia de medição, o projeto já está em processo de depósito.

O grupo pretende partir em breve para testes clínicos, realizados com pacientes recém-nascidos em hospitais universitários, além de colocar o produto no mercado. Para isso, a transferência da tecnologia está sendo negociada com uma grande empresa do ramo de equipamentos hospitalares. “Também participamos de uma rede do CNPq, chamada Instituto Multidisciplinar de Materiais Poliméricos, da qual participam pessoas interessadas em fabricar o produto”, observa Bianchi. A solução deve sair até o final do ano, acredita ele.

Saiba mais

A icterícia neonatal é comum em recém-nascidos devido à imaturidade do fígado, que ainda não consegue filtrar a bilirrubina, pigmento amarelo liberado pela quebra natural das células vermelhas do sangue. Em excesso, a bilirrubina é responsável pelo aspecto amarelado do paciente e, se ultrapassar o limite de concentração no sangue, pode trazer conseqüências ao sistema nervoso. Nesse caso, ela impregna o tecido nervoso central em regiões do cérebro, como o córtex, o que provoca a morte dos neurônios, podendo deixar seqüelas ou até mesmo levar à morte.