Conheça o trabalho das mulheres na ciência em Minas Gerais
Não só no Dia Internacional da Mulher, celebrado nesta segunda-feira (8/3), mas em toda a sua trajetória, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) pauta sua atuação para promover a pluralidade e a inclusão das mulheres cientistas. “A história mostra que nossa sociedade tem dado poucas oportunidades às mulheres nas atividades de pesquisa. Por outro lado, a mesma história mostra que, mesmo assim, elas deram inúmeras e muito importantes contribuições ao desenvolvimento científico, e que nada justifica a discriminação”, avalia o presidente da fundação, Paulo Beirão.
Números apontam que, entre 2010 e 2020, a Fapemig beneficiou 64.067 pesquisadores, dentre coordenadores de projetos, membros de equipe e bolsistas. Destes, 52,4% eram homens e 47,6%, mulheres. Porém, entre coordenadores de projetos apenas, a proporção se altera para 65% homens e 35%, mulheres, o que mostra que a presença feminina em postos de poder ainda é bastante inferior.
Professora do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal de Lavras (Ufla), Ana Carolina Barbosa está entre as mulheres que ocupam uma posição de coordenação em um projeto financiado pela Fapemig. Apaixonada pela dendrocronologia – análise de marcas nos troncos associadas aos ciclos climáticos –, ela montou o primeiro laboratório da especialidade em Minas Gerais, em 2012.
Um de seus estudos investigou a reconstrução do clima da Amazônia, a partir de anéis de crescimento de árvores. Suas pesquisas, porém, não ficaram restritas à bacia amazônica. Em 2018, Gabriel Assis Pereira, bolsista da Fapemig, sob orientação de Ana Carolina, desenvolveu, em sua tese de doutorado, duas cronologias que informam sobre o clima do Norte de Minas Gerais. No estudo, analisou-se a espécie Cedrela fissilis, conhecida como Acaiacá, em região com clima bastante diferente da Amazônia: a bacia do Rio São Francisco, na área de Itacarambi, Januária e Juvenília. Em contraste com a elevada umidade da bacia Amazônica, a região se encontra no limite sul do “polígono das secas”.
A partir do trabalho coordenado pela pesquisadora, foi possível reconstruir informações sobre o regime de chuvas na região desde 1842. Até então, só havia índices a partir da década de 1950. Saiba mais sobre os estudos na edição 84 da Revista Minas Faz Ciência.
Evolução
A boa notícia é que a diferença na proporção entre homens e mulheres beneficiados pela Fapemig caiu. Em 2010, elas não eram maioria em nenhuma das áreas de pesquisa, sendo que a maior diferença era no campo das Ciências Exatas, no qual as mulheres representavam apenas 18% do total de beneficiados. Em 2020, esse cenário mudou e elas se tornaram maioria no campo das Ciências da Saúde (52%).
Esse é o caso de Maria Clara Fernandes da Silva Malta, pesquisadora do Núcleo de Inovação Tecnológica da Fundação Hemominas, que coordena um projeto que desenvolve estratégia, baseada em Biologia Molecular, para triar doadores com fenótipos raros.
Segundo Maria Clara, a definição de “doador raro” difere conforme o banco de sangue. A maioria os divide em duas categorias: indivíduos com ausência de determinado antígeno de alta frequência na população, ou negativos para múltiplos antígenos comuns. “Devido à raridade dos fenótipos, e ao alto valor dos testes necessários para sua detecção, é importante que os bancos de sangue busquem estratégias para identificar doadores raros”, afirma a pesquisadora.
Dessa forma, o novo método proposto pela cientista permite economizar tempo e recursos, uma vez que os testes são feitos em conjuntos de cinco amostras. “Quando um deles apresenta resultado positivo, as amostras que o compõem são avaliadas individualmente, para que se identifique o portador da variante rara”, destaca.
Outro exemplo, é Andréia Queiroz Ribeiro, professora e pesquisadora do departamento de Nutrição e Saúde da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que coordenou um estudo para investigar a relação entre distribuição da obesidade e fatores individuais e ambientais relativos à população idosa do município mineiro.
Segundo a coordenadora, o Brasil convive com o aumento da expectativa de vida, porém, um problema recorrente, mas ignorado, é o ambiente onde vivem os idosos. “O processo de envelhecimento faz com que as pessoas dependam, cada vez mais, de sua vizinhança, o que se revela um desafio para o setor público, na hora de promover ambientes com melhores oportunidades de saúde e lazer aos idosos”, diz Andréia Queiroz. Saiba mais sobre o estudo neste link.
Inovação
Em Itajubá, no Sul de Minas Gerais, Juliana Caminha Noronha também atua realizando pesquisas com o apoio da Fapemig. Porém, na área de inovação. Com objetivo de desenvolver projetos com recursos naturais, a diretora de Empreendedorismo e Inovação da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) se uniu ao grupo Cheetah E-Racing para desenvolver o CE-19, um carro elétrico que compete em disputas de Fórmula SAE Brasil, uma das maiores competições de engenharia do planeta.
O veículo foi desenvolvido usando o software de desenho paramétrico Solidworks, que permite uma montagem visual com tudo que estará presente em sua montagem física. “O CE-19 foi desenvolvido para ser elétrico, contudo, já estamos pensando em carros autônomos e em evoluir o protótipo para que ele se torne mais tecnológico”, conta Juliana Caminha. A invenção recebeu alguns prêmios, como o 2º lugar Presentation 2016, além do 1° lugar Presentation 2017 e 2° lugar manufatura 2017, ambos na Fórmula SAE Brasil.
Pandemia
No Brasil e no mundo são inúmeros estudos sobre o combate ao coronavírus, de diversas áreas, com dados e resultados que impactam a sociedade. Nesse cenário, a detecção rápida, barata e acessível do vírus continua sendo uma importante forma de inibir a circulação da covid-19, assim como de suas variantes.
Pensando nisso, uma equipe de pesquisadores do Centro de Tecnologia em Nanomateriais (CT Nano / UFMG), apoiada pela Fapemig, está desenvolvendo uma plataforma portátil para identificar o vírus de modo mais rápido e barato. Segundo a pesquisadora do Departamento de Física da UFMG e membro da equipe, Lívia Siman, a Plataforma Portátil de Biodiagnostico (PPB) é baseada em dois elementos: nanosensores de ouro e um leitor ótico.
Os nanosensores são fabricados pela equipe, que também o prepara de acordo com a molécula alvo de interesse. “Por exemplo, decoramos essas nanopartículas de ouro com uma proteína produzida no CT Vacinas, que é reconhecida por um anticorpo gerado em resposta à infecção da covid-19”, explica. Ela conta que esse tipo de diagnóstico é sorológico, pois utiliza o sangue do paciente para fazer a pesquisa de anticorpos.
Além dele, a equipe também trabalha em um detector para identificar o material genético da covid. No trabalho também é usado o sensor de ouro, mas, nesse caso, os bastões são decorados com uma sequência de material genético capaz de reconhecer a sequência genética do coronavírus. “É um diagnóstico molecular onde procuramos material genético, não mais pelo sangue, e compete com exames como PCR”, informa. Saiba mais sobre o estudo aqui.